sábado, agosto 15, 2009

Momentos Negros Parte III

É claro que você já ouviu falar em “um é pouco, dois é bom e três é demais”. Pois bem, Momentos Negros III é o ponto final, o rito de passagem, resurgimento da fênix, embora o que tenha saído das cinzas parecesse mais um urubu sapecado!

Depois de fumar meu primeiro e último baseado, tentar afogar as mágoas em martines de melancia e escrever meu primeiro texto depressivo em inglês, eu fiz o que qualquer pessoa normal faria para sair da fossa: uma tatuagem! Eu andei com essa foto por uns dois meses no meu computador , impossível contar as horas eu gastei em frente a tela do laptop ao som de Belle and Sebastian analisando os pormenores daqueles rabiscos.

Enfiei na cabeça que para fazer aquilo, eu precisava de alguém bom. O marido da minha prima, que tem quatro tatuagens, se ofereceu logo para achar o estúdio, e achou. O cara que tatuou a Débora Seco, o bam-bam-bam do Itaim Bibi. Ele estava com a agenda lotada, mas como eu disse que tinha pouco tempo em Sampa ele deu um jeito. Seriam duas visitas, cada uma de duas horas. A segunda, quinze dias depois da primeira, para a pele ter tempo de cicatrizar. A primeira, para desenhar e a segunda, para colorir o desenho.

Ah, eu mencionei que eu tenho medo de agulha? Medo, provavelmente não seria o melhor termo, o certo seria pânico! Eu consigo lidar com agulha por uns dez segundos, depois disso eu entro em pânico, morro de nojo e nervoso. Mas o pior erra o medo de mim mesma. E se eu desse um pulo na cadeira e ele acabasse rabiscando minhas costas pra sempre com um borrão?! Me agarrei na cadeira com toda a força, para evitar o pulo assustado que poderia me custar a traseira rabiscada. O cara era enorme, 1,90m de altura, careca e todo tatuado. Impossível não reparar o quanto ele era bonitão. Devia estar beirando os quarenta anos, lembrava muito o Daniel Day-Lewis , tinha um olhos azul muito claro. Infelizmente, ele estava tatuando minhas costas, por isso quem se beneficiou da vista foram minhas primas que estavam por lá demonstrando suporte. Apesar do tamanho e da cara de mal, o tatuador era um doce! A maior dor que eu senti no começo era a tensão nos meus músculos. Claro que isso não permaneceu assim por muito tempo.

Duas coisas mudaram drasticamente meu estado de espírito. A primeira foi uma espiadinha que eu dei. Fui olhar pro besourinho no meu ombro, mas em vez disso, vi a minha pele meio esfolada nas extremidades do desenho. Minha pressão foi pro pé, mas eu tinha colocado na minha cabeça que eu não ia dar pití e que eu não ia dar vexame. Eu sabia que ia doer, que era agulha, se eu resolvi fazer, era problema meu! Respirei fundo e tentei relaxar, mas aí eu comecei a ver ele jogar bolos e bolos de papel higiênico no lixo. Ele ia desenhando, limpando minhas costas e jogando o papel fora. Tinha muita tinta no papel, preta e vermelha. Resolvi perguntar: “ Você já está colorindo?” Ele respondeu: “Não, por enquanto, eu estou usando só tinta preta.” A suposta tinta vermelha era sangue! Minha pressão caiu, meu estomago embrulhou. Eu pensei no tanto de suco de beterraba que eu ia ter que tomar para evitar minha velha amiga anemia.

Quando eu pensei que ia ter que pedir pinico, o recepcionista do estúdio entrou na sala. Ele conversava sem parar de me tatuar. O assistente veio dizer que o próximo cliente estava esperando. Meu alivio ao ouvir isso durou pouco, meu tatuador respondeu que ainda ia trabalhar 40 minutos nas minhas costas. Ele me perguntou se eu me incomodava do cara vir falar com ele, eu disso que não. O cara entrou na sala. Ele estava “fechando as costas”, o que no mundo da tatuagem que dizer tatuar 100% das costas. O cara entrou reclamando da dor que ele tinha sentido da última vez e que era melhor ele ter bastante xilocaina dessa vez. O recepcionista comentou: “ Cara, não tem vergonha não! A mina aqui tá tatuando a uma hora e meia ninguém nem ouviu a voz dela ainda, você ainda nem começou a tatuar e já ta reclamando!” Quando os dois saíram da sala meu tatuador comentou como o cara era chato e completou : “ Ah, se todo cliente meu fosse assim calmo como você...” Ah se ele soubesse que naquele ponto a única coisa que passava pela minha cabeça era: O que diabos eu estava pensando quando eu me meti a fazer isso?!

Os últimos vinte minutos foram os piores. Meu ombro já estava bem machucado e começando a inflamar, por isso a dor estava piorando. Então, quando eu já estava pensando que aquilo não ia ter fim, o milagre aconteceu. “Por hoje chega!” As palavra mais doces que eu podia ouvir.

Ele me lambrecou de pomada cicatrizante, cobriu a tatuagem com papel filme foi comigo a recepção marcar a segunda visita. Quando minha prima voltou para me buscar, eu estava muito grogue. No carro eu reparei que eu ainda esta sangrando um pouco. Quando cheguei em casa, eu tinha certeza que estava com febre, morrendo de frio em dezembro em São Paulo. Resolvi tomar um banho para abaixar a febre e trocar o curativo. Quando eu fui ensaboar a tattoo eu quase vomitei. A tatuagem estava em alto relevo nas minhas costas... claro que depois de pensar por dois segundos aquilo era óbvio, mas quem disse que eu estava esperando aquela textura nas minhas costas.

Quando eu acordei na manhã seguinte, a febre tinha passado e minha pouca cor tinha voltado para o meu rosto. Os próximos 15 dias seriam uma sucessão de esbarrões no metro ou um carinho desatento da minha prima que iram me relembrar constantemente da minha tatuagem. Comecei a achar que quando o dia da segunda visita chegasse, eu não teria coragem de voltar, mas foi quando eu descobri a ciência da tatuagem.

Quinze dias era o intervalo perfeito. Depois de doze dias, eu já tinha me esquecido da dor por completo, e até a última casquinha da minha tattoo tinha caído. Cheguei no estúdio bem mais confidente do que da primeira vez e fui quando algo mágico aconteceu: Ele começou a me tatuar e eu fiquei calminha da Silva! Quase não sentia dor e para falar a verdade, o barulhinho da máquina me lembrava o barulho de ar condicionado. Foi me dando um sono... teve uma hora que eu estava quase dormindo. Ele parou de me tatuar abismado com o meu estado de relaxamento. Acho que ele me tutucou para ver se eu ainda estava viva. Percebendo que ele tinha parado, abri os olhos. “Você está quase dormindo, não está?” – ele perguntou. Respondi que sim com um sorriso preguiçoso. “Ah se todo mundo que eu tatuasse fosse assim!”- ele comentou pela segunda vez. A calma foi tanta que ele me tatuou direto sem para por um segundo. Assim, antes que eu pudesse imaginar: “Pronto!”

Foto de referência para minha tattoo
A tatuagem era bonita, mas não achei que tinha ficado igual a da foto que eu tinha. A cor era diferente e o detalhamento não era tão delicado como o da minha foto. Demorou um tempo para eu me acostumar. Minha tatuagem ficou linda, mas como eu tinha a foto na cabeça, era difícil parar de comparar! Depois de um tempo eu entendi que para quem não tinha visto a foto de referência, minha tatuagem era linda de morrer, e como eu não ia andar com a foto original pregado no meu outro ombro para comparação, estava tudo bem.

O mais importante tinha sido o rito de passagem. Enterrei o defunto!A mulher da história
Momentos Negros Parte II tinha morrido. Tratei de enterrá-la e prestar homenagem com um jardim de crisântemos nas minhas costas.

A Morta tinha sofrido muito, mas como ela mesma disse: “Bad things are necessary”. Depois do enterro, prometi nunca me esquecer dela e de seu sofrimento, mas sempre buscando coisas felizes. Momentos Negros Parte III, foi o último! Agora, se iniciavam meus Momentos de Paz.


Ps: eu não posso terminar essa história sobre o comentário do meu pai ao descobrir que a tatuagem nas minhas costas não era de Hena: “Aff , tu ta parecendo um azulejo!”

terça-feira, agosto 11, 2009

Momentos negros parte II

The Lady, the blind woman, the boy, the man of the law and the man


The young lady and the blind woman



It was all lost!

Where did all the love go? It was so real we could touch.

But I judged him a lot, I expected too much… He didn't want to share his air, and I was dieing slowly.

But now, aren’t you dieing anyways? You try to look away, but all seam to be there!

There is nothing anywhere else. I will die here as well.

Where could you go? What could you do? Who would help you?

Nowhere, nothing, nobody… it is lost… even if God himself would hear me crying… it is just too late. I have ruined…

You did? Have you lost also your mind? It was him the one who didn’t give you air.

But it wasn’t air what needed, was love…

But love doesn’t resist without air.

Why not? Couldn’t love sprout in any condition?

I guess so… so what went wrong?

I though I was doing the right thing, I though he was wrong…

Wasn’t he?

I don’t know, maybe… it was sabotage.

Who would do such horrible thing?

I did!

You?

I guess so…



The boy and the lady



Why are you so pale?

I don’t feel my blood running anymore.

How come? If that were true, you would be dead!

Am I not?

Sure not miss… I can see you are alive. Let me feel your pulse.

So?

I don’t know how is possible. You are talking to me! Why did it stop?

My heart was lost.

Where? Maybe I can find it for you!

Aren’t you sweet?




The man of the law and the lady



You can’t stay here, miss. It is too late already, may be dangerous.

I have no place to go, sir. He’s there, but I am not welcome anymore.

Did that monster mistreat you? I should kill the man that could let a lady at such condition.

No, he didn’t. I was vain. I was false. I pretend to be good, but deep inside, just want to prove I was right. And he believed so, but I was wrong…

Can’t you tell him? Tell him the truth. Let him know it was all a big miss understanding.

It wasn’t just that… He was raw and I made him believe that was evil! But the evil doesn’t exist.

I can tell you, miss: Evil does exist! I am a man of the law and I have seen evil. Bad things happen.

Bad things are necessary. Evil does not exist.

Does he believe in evil now?

He sees it inside himself, but it is not there. I was blind, because I was too proud and I lied to him.

Even if you did so, you don’t deserve to lay here and wait for something bad to happen. You are just a young lady, you have all you life ahead you.

I am not that young anymore, not innocent either.



The boy is back


Miss, I found it! I have it! I have found your heart!

Let me see.

Is it yours?

Well…I don’t know.

Don’t you recognize it?

How could I?

It is yours.

It has not belonged to me for a long time. It just beat inside me.

To whom does it belong now?

My love.

Where is him?

Gone.

If that is the case, may I keep it?



The boy is still there

I am not sure if I will survive.

You need it back, right?

I suppose so.

But if I give it back, you will be strong again, and then you will leave.

Where would I go?

Fallow him, the one who owns your heart. I have it, but he owns it, I am just a thief.

No dearest, you can’t say that of yourself. If you prefer, I should die here, at you side. You can keep it.

What is the point of having the heart of a death lady? No, I will give it to you, if…

If…?

You permit me do say…

I may say what you desire.

He lost it once, would be imprudent give it back to him?

I am sure he will lose it again.

But you are going to give it anyways, aren’t you?

As long, as I live.



The man and the boy



Little fellow, have you seen a lost heart?

It is you! I have never seen you, but in my blood I feel you are the one who hurts my lady and my love.

Aren’t you too young to love?

But one day I will be a man!

Then, it will be to late for her.

How can you hold somebody’s heart so carelessly?

It is the only way I know how to do it, but now I see is not enough. I will not take with me anymore. I just want to give it back to whom it belongs.

But it does belong to you!

Who said so?

She did.

Still?

As long as she lives, she said.

So, do you know where is it?

I have it with me. She decided she didn’t want it back.

We most find her and make she keep it.

The boy, the man and the lady



Are you sure this is the way?

We are almost there. Right there, I see her tiptoes.

She looks blue.

She is even more pale than when I found her.

My lady?

She is opening her eyes. She will speak.

Have you called me “my lady” again?

Yes, I am sorry, I know you are no longer mine.

I see you have found my dearest friend.

He brought me to you.

I known he would.

She looks so weak. Is she dieing?

She can’t be.

I am afraid it is too late.

I am sorry I dropped you heart, look what I have done.

You didn’t do it. I did.

What is she talking about?

While you were sleeping I left the house and dropped my own heart in the woods. I let you think you had lost for miss-care.

Why would she do that?

Because I am as not good as it may seam. I am vain, proud… I was wrong about you and I didn’t want to admit. The evil is not inside you.

No?

No, the evil does not exist.

But I feel it. It makes me do bad things to you.

Bad things are necessary. I through my heart away, so you could meet my dearest friend. He is so kind. He reminds me of you when we met.

We met and we came to save you.

There is no salvation for a soul that through it’s own heart away, my love.

Did you call me “my love”?

It is what you are.

Your skin is so cold. Let me bring you closer to me, I will keep you warm.

My love, I am sorry I lied to you.

…

Is she dead?

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Tradução para o português

A mulher, a cega, o garoto, o homem da lei e o homem

A mulher e a cega

Foi tudo perdido!

Onde foi parar todo o amor? Era tão real que se podia tocar.

Mas eu o julguei demasiadamente, tive expectativas exageradas... ele não quis dividir seu ar, e eu morria lentamente.

Mas e agora? Você não está morrendo de qualquer forma? Você tentar avistar algo diferente, mas tudo parece estar lá.

Não há nada em qualquer outro lugar. Morrerei aqui da mesma forma.

Onde você poderia ir? O quê poderia fazer? Quem poderia ajuda-la?

Lugar algum, nada, ninguém... está perdido... mesmo se o próprio Deus me ouvisse chorar... é simplesmente tarde demais. Eu arruinei...

Você? Mas foi ele quem não te deu ar.

Mas não era de ar que eu precisava, era de amor...

Mas amor não sobrevive sem ar.

Por que não? Não pode o amor brotar em condições adversas?

Penso que sim... mas se é assim, o que deu errado?

Achei que fazia o certo, achei que ele estava errado...

E ele não estava?

Não sei, talvez... foi sabotagem.

Quem faria algo tão horrível?

Eu fiz!

Você?

Eu acho...


O menino e a mulher



Por que você está tão pálida?

Não sinto mais o meu sangue correr.

Como assim? Se isso fosse verdade, estaria morta!

Não estou?

Claro que não senhorita... posso ver que está viva. Deixe-me sentir seu pulso.

E então?

Não entendo como é possível. Você está falando comigo! Por que parou?

Meu coração foi perdido.

Onde? Talvez eu possa encontra-lo para você!

Como você é doce.


O homem da lei e a mulher

Você não pode ficar aqui senhorita. Já é tarde. Pode ser perigoso.

Não tenho para onde ir. Ele está lá, mas eu não sou mais bem vinda.

Aquele monstro a destratou? Mataria o homem que fosse capaz de deixar uma dama nessas condições.

Não, ele não fez nada. Eu fui vaidosa. Fui falsa. Fingi ser boa, mas no fundo, só queria provar que estava certa. E ele acreditou em mim, mas eu estava errada...

Não pode dizer isso? Contar-lhe a verdade? Diga-lhe que tudo não passou de um grande engano.

Não foi só isso. Ele era visceral e eu o fiz crer isso era perverso! Mas a perversidade não existe.

Posso afirmar senhorita: A perversidade existe! Eu sou um homem da lei e já a vi! Coisas ruins acontecem.

Coisas ruins são necessárias. A perversidade não existe.

E ele agora acredita na perversidade?

Ele a vê dentro de si, mas não está lá. Eu fui cega, por que fui orgulhosa e menti para ele.

Mesmo que isso seja verdade, você não merece ficar aqui largada esperando que algo de ruim aconteça. Você é tão jovem, tem toda a vida pela frente.

Eu não sou mais tão jovem assim, nem tão inocente também.


O garoto retorna

Senhorita, encontrei! Eu o tenho! Trouxe seu coração!

Deixe- me ver!

É seu?

Bem... não estou certa.

Não o reconhece?

E como poderia?

Ora, pois se é seu!

Ele não pertence a mim a muito tempo. Apenas batia dentro do meu peito.

A que ele pertence então?

Meu amor.

Onde ele está?

Ele se foi.

Se esse é o caso, posso ficar com ele para mim?


O garoto continua

Não tenho certeza se vou resistir.

Precisa dele de volta, não é?
Penso que sim.

Mas se devolvo-lhe, ficará forte novamente e então partirá.

E para onde iria?

Atrás dele, o dono de seu coração. Eu o possuo, mas é ele o verdadeiro dono, eu não passo de um usurpador.

Não querido amigo, não pode falar assim de si mesmo. Se assim o prefere, devo morrer aqui ao seu lado. Você pode ficar com ele.

E qual seria o sentido em possuir o coração de uma mulher morta? Não, devo devolver-lhe, se...

Se?

Se me permitir dizer algo.

Diga o que assim desejar.

Ele o perdeu uma vez, não seria imprudente devolver?

Tenho certeza que o perderá de novo.

Mas mesmo assim, vai entrega-lo, não é?

Enquanto eu viver.


O garoto e o homem

Pequeno amigo, você viu algum coração perdido?

É você! Nunca o vi pessoalmente, mas em meu sangue sinto que é você o vilão que feri minha senhorita, minha amada.

Você não é muito jovem para amar?

Mas um dia eu serei um homem feito.

Mas aí será tarde demais para ela.

Como você pode guardar o coração de alguém tão descuidadamente?

Era a única forma que eu sabia como fazê-lo, mas agora vejo que não era o suficiente. Não ficarei mais com ele. Só pretendo devolve-lo a quem o pertence.

Mas ele pertence a você.

Quem afirma isso?

Ela o fez.

Ainda.

Enquanto viver, ela disse.

Então você sabe onde está?

Eu o tenho. Ela não o quis de volta.

Temos que encontra-la e fazer com que o aceite de volta.


O garoto, o homem e a mulher

Tem certeza que esse é o caminho?

Estamos quase lá. Ali, vejo a ponta de seus dedos.

Ela parece azul.

Está ainda mais pálida de que quando a encontrei.

Minha amada?

Ela abre os olhos, vai falar.

Você me chamou de minha amada novamente?

Perdão, sei que não é mais minha.

Vejo que encontrou meu doce amigo.

Ele me trouxe a você.

Sabia que o faria.

Parece tão fraca. Está morrendo?

Ela não pode!

Temo que seja tarde demais.

Eu sinto muito, perdi seu coração, veja o que eu fiz!

Você não, eu o fiz.

O que ela quer dizer?

Enquanto dormia, levantei-me a noite e joguei meu próprio coração na floresta. Depois, deixei com que pensasse que o perdera por descuido.

Por que ela faria isso?

Por que não sou tão boa quanto pareço. Sou orgulhosa e vaidosa... estava errada sobre você e não quis admitir. A perversidade não está dentro de você.

Não?

Não, a perversidade não existe.

Mas eu posso senti-la. Me induz a fazer coisas ruins com você.

Coisas ruins são necessárias. Joguei meu coração na floresta, para que conhecesse meu doce amigo. Ele é tão querido, me lembra você quando nos conhecemos.

Nos conhecemos e viemos te salvar.

Na há salvação para a alma que atira fora o próprio coração, meu amor.

Você me chamou de meu amor?

É o que você é.

Sua pele está tão fria. Deixe que traga-a perto de mim, eu vou aquecê-la.

Meu amor, eu sinto muito ter mentido para você.

...

Ela está morta?


Por que os remédios normais não aliviam a pressão...


Momentos negros de depressão... pela milionésima vez o Namorido surtou... depois de passar o dia cozinhando comigo e assistindo TV, ele fez a velha conhecida cara de constipado quem quer dizer algo e não tem coragem. Eu, de saco cheio perguntei, já sabendo a resposta:

“Do you still love me?”

Resposta:
“NO...”

Demorou dez minutos até eu descobrir que eu estava entrando em estado de piração aguda! Resolvi ir embora, juntar os trapos e ir pro Brasil. Minha amigas que viviam comigo ficaram em choque. Eu resolvi ver Procurando Nemo por que assistir a Dori sempre me faz feliz. Uma das minhas companheiras de república começou a rir: “Procurando Nemo?! A gente vai ter que fumar um!” Aí eu tive que vir com meu papo de virgem: “Eu nunca fumei.” Eu tenho todos os motivos no mundo pra não fumar esse bagulho, o maior motivo é o tráfego de drogas, eu sempre me recusei a financiar o mercado ilegal que é o maior gerador de violência urbana no Brasil. Mas naquela noite era diferente, eu estava exausta, depois de 3 anos e meio de desperdício de energia, eu ia por um basta naquele relacionamento auto-destrutivo. Eu deveria ter ido fazer Yoga, em vez de fumar um beck, mas enfim, ninguém é perfeito.

Completamente retardada pelos efeitos da bendita ervinha, eu não conseguia parar de rir e de repente a existência do Namorido nem parecia assim tão importante. Entendi por que muita gente recorre a esse método: “os remédios normais não aliviam a pressão!”Claro que minha sorte de principiante fez com que eu desse com a cara no peito de um policial enquanto eu e minhas amigas agíamos de acordo com o retardamento esperado na busca desesperada de sorvete pra curar a larica. Graças a deus a autoridade estava mais interessado no seu lanchinho da madrugada do que em mim!

Dormi igual a um bebê e depois de 28 anos de insônia eu tenho que admitir que eu cogitei a possibilidade de virar maconheira, aposto que tem menos efeito colateral que remédio pra dormir, mas quando eu senti o gosto na minha boca eu desisti! Além disso, bastaram cinco minutos depois de desperta pra minha conciência social, tederminar que aquela tinha sida a primeira e última vez!

Saí da cama, empacotei os meus livros preferidos, fechei a mala e fui embora, se deixar pro Namorido endereço ou telefone 3 dias antes do seu aniversário...

Índia Parte II

Assim que eu cheguei em Mumbai o Namorido perguntou se eu gostaria de jantar. Depois de toda a comida que eles servem na primeira classe, só em pensar em comida, eu queria vomitar!!! Ele me explicou que era o último dia desse colega de trabalho na Índia e que ele queria levar a ente pra jantar. Fazer o que? Fui né!

O colega de trabalho era mais velho cinqüenta e poucos, um cara agradável, mas que já não tinha muita paciência pra aventuras, ele estava a duas semanas em Mumbai e estava mais do que pronto pra ir embora. Mais tarde, eu entenderia esse sentimento!

Depois de jantar a gente resolveu sair, ir a um bar. 14 horas de vôo... eu não conseguia dormir por que estava com o fuso horário todo trocado. Pegamos um carro no hotel com nosso muito simpático motorista Anapá! Anapá foi um ótimo guia, muito explicativo durante o caminho. Era difícil para mim sair pela primeira vez a noite, eu não conseguia ver muito, mas uma coisa me chamou atenção! O flamboiãs, eram muitos, na verdade, as árvores eram muitas, mas aquela hora da noite, eu só identificava os flamboiãs. Eu disse a Anapá que em minha cidade natal, Teresina haviam muitas árvores como aquelas. Foi quando o Namorido e nosso fiel escudeiro Anapá me introduziram a história de Mumbai, antes conhecida como Bombai.

Bombai inicialmente havia sido colônia portuguesa. Foi quando uma princesa portuguesa se casou com um príncipe inglês, que Bombai passou a domínio da coroa inglesa. Bombai foi o dote de casamento da princesa portuguesa. Durante o tempo que pertenceu a coroa inglesa a cidade foi conhecida como Bombai, com a recente independência da Índia, a cidade foi rebatizada como Mumbai.

Chegamos no bar. As rua onde o bar ficava não era pavimentada, me lembrava as cidadezinhas do litoral do Piauí. Por dentro, o bar era parecido com qualquer outro bar, as peculiaridades eram: o numero de homens era absurdamente maior do que o de mulheres, os homens eram animadíssimos, dançarinos entusiastas e extremamente afetuosos entre si. Lembro que eu e o Namorido trocamos olhares de surpresa ao ver tantos homens abraçado de mão dada... por lá isso é normal, para mim, muito engraçado.

Na manhã do dia seguinte, acordei as 5 am, ainda desorientada pelo fuso horário, enrolei o que eu pude , mas as 7 am eu tive que acordar o Namorido. Ele queria me matar! Era sábado e ele tinha acordado cedo a semana toda, mas mesmo contrariado, ele se levantou e foi comigo ao salão do café da manhã. Foi aí que tudo começou a desandar!!!! A orgia gastronômica!!!! O café era uma mistura da exótica comida indiana com delícias tradicionais inglesas que eu regava abundantemente a muito chá de jasmim e suco de melancia.

O Namorido perguntou onde eu queria ir. Eu tinha 3 coisas na minha lista de coisas pra fazer em Mumbai: Assistir um espetáculo de dança tradicional indiana, ir ao Crawlford Market e fazer aulas de culinária indiana. Fomos em busca do Crawlford Market. Para quem conhece mercado central de Belo Horizonte o Crawlford market não parecia assim tão diferente a primeira vista, mas uma vez imersa no lugar, rodeada de curiosos querendo chegar perto de você, o mercado se revela uma experiência única e, a princípio (eu tenho que admitir) assustadora. Demorou um tempo até eu entender todas as pessoas nos seguindo e querendo falar comigo e me cumprimentar. Andávamos e as pessoas me cumprimentavam, perguntavam de onde éramos. Eu e o “Com sorte” resolvemos nos apresentar sempre como brasileiros, ele sempre tem receio de ser maltratado por ser americano quando viaja pelo mundo, muita gente tem raiva de americanos, mas ninguém se ofende com brasileiro. Ele queriam conversar, apertar minha mão e me ver de perto. O mais engraçado foi quando alguém tirou uma foto minha na rua! Eles me achavam parecida com as atrizes de Bolyhood.

Crawford Market

O calor era escaldante, os cheiros da cidade muito fortes, a deliciosa comida do café muito exótica e no meio da tarde eu achei que ia desmaiar. Voltamos para o carro, o Namorido me explicou que eu devia apenas estar cansada e ainda desacostumada com a mudança de fuso, segundo ele, levava quase uma semana pra se adaptar completamente. Entramos no carro e resolvemos deixar o motorista passear por Mumbai. Era impossível não perceber a semelhança entre Mumbai e Teresina, minha cidade natal no Piauí. Pouca gente sabe, mas Teresina é uma cidade muito arborizada, o apelido da cidade é Cidade Verde. Mumbai era muito similar. Eu lembro que eu fechei os olhos no carro quando estava muito cansada e entrei naquele estado de cochilo, onde você está meio dormindo e meio acordada. O Namorido me cutucou bravo, e quando eu abri os olhos, por alguns segundos, eu não sabia onde eu estava, tudo parecia tão familiar, as árvores, principalmente, eram as mesma de Teresina e sob o sol escaldante do verão indiano, era quase impossível pensar que eu não estava em casa. Dois detalhes me tiraram do transe, um templo mulçumano que surgiu em meio a pomposas acácias e amendoeiras, e o cheio. Meu Deus, como aquela cidade cheira mal! Era a frase que mais saia da boca do Namorido durante a viajem, ele olhava para mim e me dizia com seu sotaque de gringo em português “Cheira mal aqui!”

O motorista parou e disse para gente descer do carro. Eu estava muito cansada, mas achei que seria grosseiro da minha parte não seguir o rapaz. Ele apoiou os braços numa muretinha e olhou para baixo. Eu me aproximei para poder ver o que ele observava. Era uma lavanderia gigante!!!! Lembrei das empregadas lavando roupa no rio quando eu era criança na casa de praia do meu avô. Era uma área cheia de tanques, e muitas mulheres e crianças lavando e estendendo infinitos metros de tecido.

Já era tarde, eu estava exausta. Ir de um lugar par o outro em Mumbai era uma tarefa árdua e estressante, e nós demoramos dias até descobrir como as coisas funcionavam por lá quando o assunto em questão era transporte! A maioria das ruas em Mumbai não tem nome, o primeiro mapa oficial da cidade foi feito a pouco tempo. Quando alguém te dá um endereço de um lugar, o endereço é algo mais ou menos assim:

Andari (que seria a região, tipo o Bairro)
Na rua da universidade , do outro lado da rua do Café Coffee, X com o City Bank.

Até os endereços oficiais nos cartões e mas caixas das coisas eram escritos assim. Quando a gente queria ir a um lugar, nós íamos a portaria do hotel pedíamos o endereço, ele escreviam as direções num pedaço de papel, a gente pegava um táxi, carro do hotel, ou um Rickchah, o porteiro do hotel conversava com o motorista para ter certeza que ele sabia onde ele ia e a gente ia. No meio do caminho o motorista parava, saia do carro e ia pedir informação de como chegar no lugar. A gente ficava P... da vida. Eu reclamava: “Se ele não sabe onde é por que disse que sabia?!” Achei que eu falei isso tanto quanto o Namorido disse: “Cheira mal aqui!” Bem, depois de alguns dias eu entendei que essa era a única maneira de se achar no caos de Mumbai. Todos os motorista, até mesmo os melhores, parava umas 10 vezes para encontrar um lugar. O truque era não ficar ansiosa e não sair com pressa pra chegar em lugar algum!!!!

Muita coisas aconteceram na Índia, mas a que mais me marcou foi uma descoberta que para muitos pode soar estúpida! De onde veio o jamelão. Eu acho que o jamelão está espalhado pelo Brasil todo, mas em alguns lugares, como em Minas Gerais, as pessoas não sabem que jamelão, além do apelido do mais famoso puxador de samba da Mangueira, também é o nome de uma fruta. Lembro do meu primeiro namorado dizendo que eu ia morrer se eu comece aquela fruta estranha daquela árvore desconhecida na beira do lago de Boa Esperança-MG. Eu ri, e disse que não deixasse a fruta sujar a sua roupa por que mancha de jamelão não há quem limpe! Em um dos café da manhã no hotel de Mumbai, eu vi uma frutinha parecida com uma azeitona preta, quando eu vi de perto, era jamelão! Eu estava certa. Eu tinha visto uma árvore muito parecida, mas do carro não pude confirmar! O Namorido não conseguia entender meu entusiasmo com aquela frutinha. Eram anos de história!!! Teriam os portugueses trazido o jamelão da Índia, quando Bombai ainda era de Portugual??? Fiquei obsecada pelo fato do jamelão ter vindo de tão longe! Perguntei no hotel pelo nome da fruta em hindi: jamom.

Enquanto eu enlouquecia na minha pesquisa botânica, tirando milhões de fotos de todas as árvores em Mumbai para mostrar para o meu pai, um apaixonado por arborização, o Namorido estava obcecado com algo mais misteriosos: Bean bag. Por toda Mumbai haviam pichações em muros que diziam Bean Bag, seguido de um numero telefônico. O Namorido não se continha de curiosidade: “ O que seria Bean Bag? Só pode ser um código!” ele pensava. Bean Bag em português que dizer Saco de feijão. Era difícil imaginar alguém vendendo sacos de feijão por meio de pichações em muros, aquilo tinha cara de contravenção, e isso sim interessava o Namorido. Durante dias, ele perguntou sobre o mistério das pichações, ele especulava tráfico de drogas, prostituição, tráfico de armas, ou até mesmo de escravos... várias vezes ele se sentiu tentado a ligar para o número pichados nos muros só pra descobrir o que estava por trás do mistério do saco de feijão, mas ele tinha medo de se meter em encrenca e acabar boiando morto em um rio fedido da Índia. Pouca gente sabia do que ele falava, o que me impressionava, por que as pichações estavam por todos os lugares. Foi quando a resposta finalmente chegou. Nós estávamos jantando com alguns colegas de trabalho do Namorido quando ele pela centésima vez perguntou: “ Alguém sabe o que há por trás dessas pichações que dizem Saco de feijão por toda a cidade? O que é que eles vendem na verdade?” Rohir, respondeu displicentemente: “Feijão”. Eu não agüentei e quase entalei de tanto rir! Lá ia o mistério do Bean Bag que tirara o sono do Namorido por dias. “ O que você pensou que fosse? Ora, mas se diz saco de feijão, por que você acha que eles iam vender outra coisa?” completou o colega de trabalho! Nada na índia era simples, tudo era uma dificuldade só, a comunicação entre as pessoas era péssima, ninguém se entendia, mas se alguém anunciava um Saco de feijão, era feijão o que eles vendia!!!! A única coisa simples na índia, era comprar feijão!

Falando em falta de simplicidade!!!! A quarta coisa que estava na minha lista de coisas para fazer , era ir a um templo. Queria ver de perto aquela filosofia simplista Hare Rama, que tanto instigava o ocidente desde os anos 70! Pensei que uma visita ao templo seria algo relaxante, pensei errado! Quer simplicidade em Mumbai? Vai comprar feijão! Quando eu cheguei na porta do templo, era uma multidão de pessoas na porta, duas filas, uma de mulheres e uma de homens. Todos passaram por revista, raio X e scanner de bolsas. Eu perguntei ao motorista por que tanto. “Ah madame, um louco tentou explodir o templo a uns anos atrás, agora é assim!” Eu senti uma “infinita paz” dentro do meu coração quando ele me disso isso, desde que eu havia chegado a Mumbai, pelo menos duas bombas haviam explodido em diferentes áreas da Índia, mas ninguém parecia dar importância, era notícia comum. O engraçado era que se acontecia um assassinato, todo mudo ficava chocado e os jornais não falavam de outra coisa. Matar uma pessoa com uma facada é um abominação, explodir 30 é coisa do dia a dia, vai entender! Entrei na fila mesmo assim, um bando de gente tentando me vender flor de plástico, me puxando falando comigo em Hindi. Eu estava só o motorista era mulçumano e não quiz me acompanhar, ia estacionar o carro e esperar que eu ligasse. Depois de 15 minutos na fila, a mulher me disse que eu não podia entrar com um câmera fotográfica na bolsa! Lá vou eu passar pelo inferno de sair pelo lugar que eu entrei, todo mundo me puxando tentando me fazer tirar o sapato, foi me dando um nervoso e eu sai dali correndo e liguei pro motorista. Ele veio me buscar depois de 10 minutos, o trânsito é simplesmente uma loucura. Desisti de deixar a câmera no carro, e voltar ao templo, a idéia de passar por todo aquele povo de novo sozinha não era nada relaxante!!!

Toda aquela história de detector de bombas estava me dando nos nervos , no shopping era a mesma coisa, qualquer lugar onde se aglomeravam muitas pessoas, lá estavam os detectores de metal e os policiais. No último dia em Mumbai, eu finalmente consegui ir ao templo, era de dia, o templo estava mais vazio. Era absolutamente lindo!!!!! Todo branco, acho que uns 4 andares, limpíssimo. O lugar mais limpo que eu estie em Mumbai depois do meu hotel! Eu o Namorido e olhamos todos os altares e lemos a fantásticas histórias de Christna, na saída um americano convertido Hare Rama encontrou a gente e começou a conversar. Era uma conversa sem fim sobre religião, política, sociedade, amor... o cara tava em outro mundo! Mas eu lembro dele dizendo que a gente era um casal que parecia bacana, a se ele soubesse que alguns meses depois eu estaria no Panamá esperando meu vôo para Belo Horizonte saído praticamente fugida do Namorido... as aparências enganam até os mais espiritualizados!

PS: Ah! para mais informações sobre a origem do jamelão:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Jamelão

terça-feira, junho 10, 2008

Coisas de Laurinha na Índia - Parte I

Eu estava dormindo quando o telefone tocou. Era o Namorido. Já faziam duas semanas que ele estava Índia. O que o Namorido estava fazendo na Índia? Eu respondo. Ele trabalha como consultor de negócios e tecnologia. Ele propõe soluções tecnológicas para negócios. Depois de estudar os problemas do cliente, ele projeta uma solução e manda para os programadores terceirizados na Índia. O projeto no qual está trabalhando atualmente estava atrasado na parte de programação, então a empresa do Namorido resolveu mandá-lo à Índia para resolver o pepino.

A viajem deveria durar duas semanas, mas no meio da segunda semana, ele foi informado que teria que ficar sete dias a mais do que o combinado. Naquela manhã, quando ele me acordou, sua voz não parecia das melhores: “vou ficar mais uma semana; agora seriam quatro semanas, completando um mês na Índia, um mês sem a gente se ver!” Eu disse que sentia muito, por que ele ligava todo dia para reclamar de Mumbai, a cidade onde ele estava. Desliguei o telefone e voltei a dormir.

Assim como a viajem do Namorido, algo na minha vida vinha se prolongando mais do que o esperado! Eu estava a quatro semanas lutando inutilmente contra uma crise de herpes que tinha aparecido nos meus lábios, providencialmente na semana do meu aniversário. Depois de passar o meu aniversário todo segurando a boca para não sorrir, por causa da dor que aquilo causava na herpes, eu tinha ganho o apelido de Botox Girl. Meus dotes de maquiadora era tão bons que ninguém conseguia ver os ferimentos, assim meus amigos concluíram que a herpes era uma mentirinha que eu tinha inventado para não admitir que eu tinha feito Botox! Já faziam uma semana e meia que eu não trabalhava, minha herpes continuava a se espalhar e tinha chegado a me deixar sem comer nada sólido por dias. Na tentativa de acalmar meu estresse, maior vilã em caso de herpes, eu tinha tirado uma folga por tempo indeterminado!

Lá estava eu na cama tentando dormir depois de ser acordada pelo Namorido, quando o telefone tocou novamente. Era ele de novo. “Ei, você quer vir pra cá?” Eu ainda estava dormindo, por isso demorou um pouco para entender que eu estava sendo convidada para ir para a Índia! O hotel estava sendo pago pela empresa, o vôo seria pago com milhagens, e tudo em Mumbai era bem barato, a viagem sairia quase de graça. Havia um porém: eu tinha dois dias para me organizar e isso incluía tirar o visto e tomar todas as vacinas para as doenças asiáticas, às quais eu não havia sido exposta na vida!

Wow hoooo!!!! Eu vou para a Índia, não me agüentei e mandei um e-mail para vários amigos e para os meus pais! Organizei a papelada e fui à embaixada indiana; deixei os papéis para voltar no outro dia para buscar o visto. Papelada entregue, era a hora de enfrentar a pior parte: as vacinas! Descobri doenças que eu nem sabia que existiam, como a Encefalite Japonesa!

Depois de toda perfurada por várias vacinas, eu estava pronta para a Índia. Como eu tive pouco tempo para organizar a viagem, faltou tempo para ficar nervosa. Antes que eu tivesse tempo para isso, eu estava no portão de embarque, cercada por indianos! Um rapaz se aproximou e começou a conversar comigo. Foi quando eu descobrir que os indianos são falantes e gostam de interagir! Quando ele me perguntou onde eu estava sentada, eu tive uma surpresa. Ele disse: “Meu assento é 40 D, qual é o seu?” Eu abri a passagem e disse: “2K”. Os olhos do rapaz se arregalaram e ele disse: “Primeira Classe?” Eu respondi que não, mas ele balançou a cabeça e disse que sim, eu estava na primeira classe. Achei estranho, entrei no avião, muito desconfiada. O comissário de bordo percebeu minha dúvida e perguntou qual era o número do meu bilhete. O rapaz estava certo, era primeira classe. Eu não entendi, mas não reclamei. Sentei na minha poltrona enorme e me preparei para 14 horas de bajulação!

Era um absurdo! Primeira classe é um milhão de anos luz separado da classe econômica, tudo exageradíssimo. A poltrona era maravilhosa, enorme, reclinava até quase deitar; TVs individuais, luzes para leitura que vinham de todos os ângulos possíveis e imagináveis. Até ai eu estava bem, mas quando a bajulação começou, eu fiquei chocada. Era tanta comida! O jantar era uma refeição de quatro, cinco pratos: entrada, salada, prato principal, queijos e frutas e por último, sobremesa! Isso tudo regado a vinho, champagne, wiskey, cerveja,... quando eu cheguei na sobremesa, eu tive que recusar o sunday, sobe o olhar descrente da aeromoça! Antes de aterrissar, veio o café da manhã! Outra orgia gastronômica! Eu fiquei pensando se não podia existir uma coisa, tipo classe média, no avião. Um pouquinho mais de espaço e uma comidinha um pouco melhor era suficiente, porque aquele exagero me fazia sentir mal! Bem, mas parece que assim como na sociedade brasileira, a classe média foi espremida!

Cheguei em Mumbai sem conseguir nem me mexer, de tão cheia pelo absurdo de comida! Passei pela imigração; peguei minha bagagem. E resolvi ajudar a menina que estava na poltrona do lado da minha. Elas estava mudando para Índia e, por isso, tinha milhões de malas. Quando nós duas saímos pelo portão de desembarque encontramos um mar de pessoas. Eu logo avistei o Namorido e um senhor indiano num uniforme branco segurando uma placa que dizia: Mrs. Laura Barreto. A garota que eu ajudava avistou seu namorado ao mesmo tempo. Na saída, o homem que segurava a placa com meu nome começou a pegar a bagagem da garota. Ela teve que explicar para o senhor que ela não era Laura.

O senhor era o motorista do hotel. Como o Namorido não sabia se conseguiria ir me buscar, ele contratou um motorista do hotel, mas acabou saindo mais cedo do trabalho e o acompanhando ao aeroporto. O senhor era uma graça. Me chamava de madame. Era madame pra cá, madame para lá e depois de todo o tratamento de primeira classe do vôo, eu estava achando aquilo muito engraçado! Principalmente depois de ter arrastado minha mala por NYC no metrô até o aeroporto, subindo e descendo escada, com aquele peso todo. Em menos de 24 horas eu sai de garçonete em NYC para Madame na Índia e tudo isso por causa de um vôo de primeira classe!
Vista do salão principal do meu hotel!

quarta-feira, maio 28, 2008


Wohooooooo! Coisas de Laurinha está indo para a Índia!!!!!!!!!! Amanhã, Laurinha embarca para Mumbai para uma semana e meia na Índia. Não, eu não vou ver o Taj Mahal, mas enfim... Em uma semana eu vou estar de volta com histórias e fotos!

quarta-feira, maio 14, 2008

Pequeno apontamento linguístico


Em Junho de 2007 eu recebi muitas visitas do Brasil. As primeiras foram minhas duas amigas, seguidas por minha mãe e minha madrinha de batismo. Dentre todas essas, a que tinha maior desenvoltura como viajante e com a língua inglesa era minha madrinha. As que menos entendiam o enrolado som da minha segunda língua eram minha mãe e uma de minhas amigas.

Minha mãe chorava com a cara toda vermelha depois de assistir o Fantasma da Ópera prometendo que, em um ano, voltaria sabendo falar inglês pra conseguir entender tudo o que os atores falavam. Eu consolei dizendo que eu mesma não entendia tudo.

Minha amiga teve uma experiência um pouco mais frustrante. Depois de paquerar horas em um bar, ela conseguiu com que um carinha se aproximasse dela. O moço, para a minha descrença, tomou a iniciativa de falar com ela. E quando eu digo: “Pra minha descrença...” eu falo sério, por que os homens nesse país são uns bundões! Voltando ao assunto... O carinha falou com minha amiga. Sem perder a pose e o sorriso magnético que tinham atraído o rapaz ao lado oposto do bar, ela me olhou dando o sinal para a intromissão. Eu sorri, disse para o rapaz que ela era brasileira e que não falava muito inglês. Aquilo na nossa cabeça de brasileira era um detalhe que faria com que ele falasse mais devagar e tivesse paciência, mas a resposta foi um tanto inesperada. O rapaz ficou vermelho, tentou falar comigo, mas estava tão envergonhado que nada que saía da sua boca fazia sentido. Ele finalmente disse que foi um prazer conhecer minha amiga e voltou para o outro canto do bar de onde tinha vindo. Minha amiga queria morrer de raiva e, assim como minha mãe prometeu que em um ano voltaria falando inglês e aquilo nunca mais aconteceria!

Outro dia, conversando com uma garota filha de mexicanos, eu confirmei uma antiga desconfiança. Era algo que eu sempre soube, mas nunca me senti a vontade para dizer, por soar muito pretensioso. A maioria dos brasileiros é capaz de compreender espanhol se falado devagar e articuladamente, mas o contrário não acontece. Se você, brasileiro, falar em português com uma pessoa que fala espanhol, ele olha para você como se fosse louco. “Ai, você está falando português, não espanhol...hahahah!” Quantas vezes eu ouvi isso! Eu tento explicar que meu espanhol é praticamente um sotaque, uma vez que meu vocabulário é bastante restrito! Nada adianta! Depois de muito pensar sobre o assunto, eu cheguei à conclusão de que talvez os brasileiros sejam mais expostos ao espanhol do que os hispânicos ao português, já que nós somos o único país sul-americano a falar português. Para confirmar essa tese só pondo um português e um espanhol para conversar! Se a explicação não for essa só me resta pensar que nós somos realmente mais inteligentes. Foi no meu jantar de aniversário que eu ganhei este presente, a confirmação da minha tese. A garota, amiga de uma amiga, veio ao meu jantar, e lá estava eu sentada do outro lado da mesa enquanto ela dizia que tinha namorado um brasileiro: “ O engraçado era que se eu falasse com ele em espanhol, ele entendia tudo, mas quando ele falava em português comigo, eu não entendia uma palavra!” “Ahá!” eu pensei e me levantei! Chamei a atenção do Namorido e pedi para ela repetir o que tinha dito! Ali estava uma hispânica confirmando a minha superioridade intelectual de brasileira! Então, nas próximas vezes que você ficar bêbado e começar a falar com um sotaque cafona, copiado de uma novela, e alguém disser que isso não é Espanhol, mande essa pessoa ler o meu Blog!

Claro, que na tentativa de ser entendido por um hispânico você provavelmente vai inventar muitas palavras que não existem, assim como meu chefe! Impossível trabalhar no ramo de restaurantes em NYC sem falar nenhum espanhol. Por volta de 80% dos seus empregados não falam inglês, só espanhol. Por isso, meu chefe, um grego que mesmo vivendo aqui por cinco anos, fala um inglês horroroso, sempre arranha um espanhol. Outro dia, estávamos trabalhando e os Bussboy, estavam meio de papo pro ar. Bussboy, para quem não sabe, são os auxiliares dos garçons, eles recolhem pratos sujos, limpam as mesas quando as pessoas vão embora e coisas do tipo. Eles geralmente são hispânicos, indianos ou afins. Vendo os jovens rapazes de papo pro ar com o restaurante relativamente cheio, ele pediu a um Bussboy que limpasse uma mesa: “Clenaria, Clenaria, Senhor!” Todos os outros Bussboys e eu começamos a rir. Eu lembrava dos produtos Tabajara do Casseta e Planeta, como o Embelezeitor Tabajara! Lá estava nosso bom e velho Embromation sendo usado em outro língua! Clenaria! Era o Spanglish!

Eu não posso culpar meu chefe por tentar! Até por que o bom e velho Embromation pode um dia vir a salvar o seu dia. Minhas amigas mencionadas anteriormente, em visita ao Empire State Building, se perderam. Uma foi para um lado, outra para o outro e antes que se dessem conta, estavam sozinhas. Como as duas estavam subindo o Empire State Building, as duas tiveram a mesma idéia: achar o elevador. Uma delas sabia mais inglês do que falava, por que era envergonhada, mas a outra não falava por que não sabia mesmo! Foi quando ela viu uma funcionária local e resolveu perguntar: “Where is the Elevator?” A moça apontou a direção enquanto minha amiga se deliciava com a descoberta dessa nova palavra: Elevator era na verdade Elevador, e o Embromation não era uma completa embromação afinal de contas! Assim as duas se reencontraram no elevador.

Meu chefe falando Clenaria como se a palavra existisse, minha amiga se deliciando com a ampliação do seu vocabulário com o Elevator ou a minha felicidade na descoberta da “superioridade intelectual brasileira” (como eu nunca ouvi a mesma coisa de um português, eu vou ser obrigada a deixá-los de fora dessa panelinha, até por que a gente sabe que intelectualidade não é bem o forte desse povo!) eram no fim das contas a mesma coisa: um grande esforço para superar as barreiras da comunicação. Enquanto o pobre rapaz americano se encolhia e voltava para o outro canto do bar deixando para traz uma mulher maravilhosa, outros se torcem, gesticulam e até inventam novas palavras na ânsia de serem entendidos! Por isso, termino dizendo: “Quem tem boca vai a Roma! E pode até fazer uma escala em New York!”

PS: Quase um ano se passou e minha amiga e minha mãe têm pouco tempo para aprender inglês antes de virem me pagar uma segunda visita!

segunda-feira, maio 05, 2008

Natal longe de casa

Chegaram aqueles doces e assustadores tempos! As festas de final de ano! O maior medo de quem mora longe da família, é não poder voltar para casa nessa época do ano. É quando você pensa no que fez durante aqueles 12 últimos meses e pondera, coloca as suas realizações de um lado da balança, do outro, os amigos e a família deixados tão longe. Nós, os despatriados, trabalhamos duro o ano todo. Longas horas são necessárias para compensar nossos lapsos de vocabulário, ou nossa ignorância de certos costumes locais, mas nós nos atemos as possibilidades. São tantas portas abertas! Amigos que são feitos aqui acabam se espalhando por todos os lados do mundo, e antes que você perceba a magia de morar em uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, você está se correspondendo com pessoas na Grécia, no Japão, França, Itália, Rússia, Peru, Chechenia... Todas essas pessoas vão alimentando seus sonhos de conhecer esses países e culturas diferentes.

A outra coisa que nós mantém de pé, muitas vezes mais doentes e cansados do que acreditamos estar, é a perspectiva de voltar para casa no fim do ano. Quando, por algum motivo, isso não acontece...ai, a casa cai!

Era fato! Eu não tinha dinheiro para passar o Natal em casa. Na situação estranha em que eu e o Namorido estávamos, a possibilidade de passar o Natal no Texas, tendo que me explicar a todo tempo para os parentes, não parecia muito tentadora. Ele me ligou perguntando o que seria do Natal. Tentei pensar em algo, mas nada me ocorreu. Ele me disse que se eu quisesse ir com ele para o Texas, estava convidada, mas se não fosse, ele passaria o Natal em New York comigo. Expliquei que estava sem dinheiro. Ele ofereceu o cartão de crédito, disse para ficar com ele e, que depois, quando tivesse dinheiro podia pagar a conta. Eu aceitei.

Depois da decisão do Natal vinha a do Reveillon. O ano que eu passei a virada em NYC foi horrível! Frio demais, todos os lugares lotados e as festas fechadas eram caras demais. Eu sugeri passar o Reveillon por lá também. Eu tenho uma amiga de Belo Horizonte, que se formou na em Belas Artes na UFMG, que mora em Austin. Nós nos falamos sempre, mas nos vemos muito pouco. Como o Namorido tem amigos em Austin, achei que essa seria uma solução barata, divertida e não estressante. Ele concordou, mas deixou no ar se preferia passar o Reveillon em Dallas ou em Austin. Completou dizendo que também não queria gastar uma fortuna no Reveillon. Assim, nós marcamos as passagens.

Depois de gastar um dinheiro que eu não tinha em presentes para a família do Namorido, nós fizemos as malas e migramos para o sul. Aquela era a melhor parte de chegar em Dallas em Dezembro: fugir do frio de New York.

A família me recebeu bem como sempre! Eu e o Namorido saímos logo desembestados procurando por os últimos detalhes nos presentes antes do Natal restrito. A família do Namorido tem dois natais! Um é celebrado com a mãe, irmã e irmão dele. O outro com toda a família. Essa divisão é feita por que o resto da família dele é muito pobre e eles se sentem constrangidos trocando presentes caros na frente de todos. Saímos para um filme familiar, almoço familiar, e finalmente trocamos presentes à noite. Nada muito emocionante ou muito familiar para mim.

Na manhã do dia seguinte veio a parte dolorida do Natal em Dallas, a igreja! A última vez que eu fui a uma igreja católica, tirando casamentos e missas de finados, tinha nove anos de idade. Me lembro das lágrimas que escorreram no rosto da minha avó, quando disse que aquela era a minha última vez, por que eu não acreditava em nada do que o padre dizia. Lá estava eu, depois de fazer a minha própria avó chorar de decepção, imaginando as terríveis torturas que sua netinha herege sofreria nas profundezas do inferno pela eternidade, incapaz de dizer: “Não muito obrigado, mas eu não vou à igreja!” Achei que seria extrema grosseria e, por isso, eu remoia a raiva de estar naquela igreja, muito pior do que a católica: Igreja blábláblá.. Fanática de Jesus Cristo!

Bem, eu sobrevivi à igreja, extremamente injuriada, mas inteira. Agora, era saber se eu sobreviveria a Three Rivers! Oh Three Rivers! Desde que eu me mudei para New York eu ouço histórias sobre Three Rivers, a cidade natal de minha sogra e onde parte de sua família ainda vive. O Namorido sempre foi muito enfático ao descrever os familiares de Three Rives: Red Necks! A primeira vez que eu ouvi a expressão, ele teve que me explicar o que significava. A tradução de Red Neck para português é Pescoço Vermelho. O termo é extremamente ofensivo e discriminante, mas por já ter caído há muito tempo na linguagem popular a expressão foi se banalizando. Eles chamam de Pescoço Vermelho as pessoas brancas, pobres e sem escolaridade. Como essas pessoas não têm formação acadêmica, elas geralmente fazem trabalhos braçais, muitas vezes expostos ao sol, caso da construção civil. A exposição solar durante o trabalho é responsável por fazer com que a parte de trás do pescoço fique vermelha, daí, Red Necks. Essa é a explicação do surgimento do termo. Hoje em dia, independente do trabalho que essas pessoas realizam, os Red Necks, são considerados indivíduos sem escolaridade, classe, educação ou qualquer noção de etiqueta. Mas esse termo só se aplica a pessoas de descendência branca; negros e latinos não podem ser ofendidos por esse termo! Foi levando em consideração o quão ofensivo o termo é, que eu me assustei quando vi o Namorido descrevendo sua própria família por tal linguagem.

No Natal do ano passado, eu tinha ouvido muitas histórias sobre a avó e as tias do Namorido. Ele tentava me preparar para o pior, foi o que eu pensei. Quando eu, finalmente, as conheci, eu entendi a razão do discurso distanciado do Namorido. Sua mãe saiu de Three Rives assim que se casou com seu pai. O pai do Namorido era formado e tinha um emprego que colocou a família no padrão de classe média; sua mãe é professora primária. Enquanto o Namorido e seus irmãos tiveram acesso a educação e cultura, vivendo em Dallas, os resto da família continuou em Three Rivers, uma cidadezinha que faz Cocal de Telha, no interior do Piauí, parecer uma megalópole. O abismo cultural entra as duas partes da família é imenso, mas impossível deixar de observar o quão doce e divertidas são as tias e a avó do Namorido. Esse ano, no entanto, a história era outra. Diferente do natal de 2006, quando as tias e Granny se juntaram a nós em Dallas, esse ano, seriamos nós que iríamos para Three Rivers. Então depois do Natal classe média alta em Dallas e da tortura psicológica na Igreja Besteirol de Jesus Cristo (eu não si o nome certo da igreja, mas eu nunca ouvi tanta loucura num mesmo lugar!), empacotamos tudo e rumamos ao Sul!

Chegamos à noitinha; toda a família já estava na sala da casa de Granny (Vovó) esperando por nós. Reconheci todas as tias enquanto tentava me lembrar quem era quem, uma vez que todos os nomes começavam com “J” e eram bem parecidos. Eram muitos os rostos novos, alguns primos e as crianças dos primos, um bando de meninas com nomes muito similares começados em “A”. Um dos primos do Namorido me cumprimentou e me apresentou a mais nova de suas três filhas de nomes iniciados com “A”. Ela não se mostrou tímida, pulou no meu colo e beijou minhas bochechas e espremeu minha cabeça. A irmã “A” mais velha devia ter uns 14 anos de idade, toda vestida de preto, estilo “sou revoltada e Rock and Roll” enquanto a irmã do meio era hiper-ativa e muito feminina. Para confundir ainda mais minha cabeça, havia uma quarta garota com nome começando com “A”; era prima das outras 3 garotas, filha de outro primo do Namorido. Eu repeti mil vezes os nomes das meninas na minha cabeça assim que eu fui apresentada a todas elas, mas em menos de dez minutos eu já não tinha idéia de quem era quem. Eu fiquei quieta pela noite toda, com medo de chamar alguém pelo nome errado. Passei ilesa pelos jogos familiares de Natal. Tenho que admitir que foi o Natal mais engraçado e barulhento da minha vida.

Na manhã seguinte, o Namorido resolveu me mostrar o Rancho. Em dezembro, o Texas é extremamente seco, assim como o Piauí em julho. Enquanto caminhávamos, o Namorido me atualizava das fofocas familiares das quais tinha se inteirado na noite anterior. O seu primo, o pai do trio “A”, acabara de sair da prisão, ficou preso por causa de uma briga com a sua Namorada. Não fiz muitas perguntas, achei que pudesse ser ofensivo. O outro primo tinha recentemente sido promovido a chefe de uma de suas tias. Ele era agora gerente do restaurante mais famoso da cidade (eu tenho a impressão que esse era o único, por isso o mais famoso!), onde sua tia era garçonete. O Tio estava trabalhando em novos carros de corrida e provavelmente iria querer me mostrar sua oficina mais tarde. Nós andávamos no meio dos galhos torcidos enquanto o Namorido me explicava a existência de tanta sucata na propriedade. Eram carros, tratores e até caminhões velhos no meio do mato. Ele me dizia que o falecido avó era mecânico, quando vimos alguém acenado para nós da janela. “Já acharam alguma cascavel ?” gritava o seu tio pela janela. O Namorido viu meu rosto se transformar. “Ainda não, só uns gatos selvagens por enquanto!” respondeu o Namorido, que logo após responder o tio tratou de me acalmar dizendo que não era assim tão comum esbarrar com uma cascavel.
Não foi um réptil que nos pôs para correr por entre os galhos secos da propriedade. Depois de andar bastante e tirar muitas fotos nós vimos uma possa de água em uma parte rebaixada do terreno. Na margem da grande possa d`água, um cavalo selvagem e um passarinho no seu lombo. Eu me aproximei o máximo possível para tirar uma foto sem assustá-lo. Ele parou de beber e me encarou. O Namorido riu e disse que aqueles pareciam personagens de um desenho animado: o cavalo letárgico e o passarinho saltitante. Foi logo após esse comentário que o cavalo me encarou de novo. “Eu acho que ele se ofendeu com o termo Cavalo Letárgico!” eu disse. O cavalo vendo que nós ainda estávamos lá começou a se aproximar de nós. Eu demorei alguns segundos para entender que ele estava realmente nos confrontando. Assim que eu percebi, comecei a me afastar andando de costas sem perder o cavalo de vista até que esse chegou bem perto e eu tive que me virar e começar a correr. O cavalo parou assim que tinha atingido o ponto alto do terreno, de onde nós o observávamos; nos encarou e esperou que fôssemos embora. Eu repreendi o Namorido por ter ofendido o cavalo! “Letárgico, hein?!”Voltamos para a casa de Granny, onde a própria me perguntou se eu havia encontrado uma cascavel. Eu lhe disse que não, que tinha corrido de um animal bem maior que uma cascavel. Ela me contou como tinha matado uma cascavel que ela tinha encontrado na varanda de sua casa uma semana antes de chegarmos lá. O Namorido e eu trocamos olhares, ele sabia o que aquilo significava: “Uma cascavel morta na varanda semana passada e ele me levando por expedições no meio do mato!”

Depois do almoço, foi a hora de outra expedição. Eu, o Namorido, o primo gerente do restaurante mais famoso da cidade, a garota “A” do meio, além do primo recém saído da prisão fomos visitar a oficina do tio mecânico. Nos Eua, ninguém assiste Fórmula 1; corrida de carros famosa por aqui é Nascar! Outro tipo popular de corrida por aqui é a de carro de arranque. Aquela corrida que dura poucos segundos, onde os carros percorrem uma distância relativamente pequena em linha reta. Esses carros chegam a velocidades altíssimas e, geralmente, precisam da ajuda de um pára-quedas para pararem. Diferente da Fórmula 1, que no resto do mundo é conhecido como um esporte de elite, as corridas de carros americanas são uns dos esportes favoritos dos Red Necks. O Tio do Namorido construía carros de rápida aceleração, os do tipo que precisam de pára-quedas para freiar. Entrei em todos os carros, ele me explicou como tudo funcionava e ficou encantado em conhecer uma mulher que sabe dirigir um carro de câmbio manual. Eu adorei a oficina, mas foi quando ele me mostrou um pedaço do motor de um dos carros preso no teto, o que ocorreu por causa da explosão enquanto ele trabalhava, que eu pensei que aquele lugar talvez fosse mais perigoso que o meio do mato com o cavalo letárgico.Depois de visitar a oficina, o primo do Namorido queria me mostrar um dos rios de Three Rivers (que se traduz para português como Três Rios). Ciente do meu interesse em tirar fotos das sucatas do seu avó, o primo resolveu me mostrar alguns carros velhos que tinham sidos levados pela correnteza da última enchente do rio. Agora, na seca, os carros estavam na beira do rio e ele achou que eu adoraria fotografá-los. Ninguém o contrariou, muito menos eu, a quem ele tentava agradar. Nós andamos no meio do matagal por vinte minutos seguindo a margem do rio e nada de carros. Ele continuava a dizer que eles deviam estar um pouco mais longe. Eu tentava me ater ao fato de que a filhinha do primo estava conosco, mas era difícil não lembrar que eu estava a vinte minutos entrando cada vez mais profundamente num matagal com um ex-presidiário. Eu sabia muito pouco do motivo pelo qual ele tinha sido preso e, por isso, depois de meia hora procurando pelos caros, eu tirei um monte de fotos de galhos torcidos e do rio e me fingi de muito satisfeita!

A pequena “A”, esperava por mim indócil. Durante o pouco tempo que eu estava lá as duas irmãs mais novas haviam me adotado como mãe. Foi só eu brincar de massinha, mostrar algumas fotos no computador e deixar que elas penteassem meu cabelo e lá estava eu sendo abraçada e conduzida de mãos dadas a todos o lugares pelas duas. Foi nesse momento que eu me meti em outra aventura texana. A pequena “A” estava eufórica para passear comigo no carrinho de golfe. Eu vi a mais velha das “A” levantando poeira do chão dando cavalo de pau com o carrinho. Ela parou na nossa frente e perguntou se eu queria dirigir. Eu recusei. Grande erro. A “A” do meio tomou o acento do motorista, me encarou esperando que eu tomasse o acento do passageiro. Eu procurei o olhar de algum adulto que estivesse por perto para estudar sua expressão facial, enquanto eu perguntava a uma garotinha de nove anos se ela sabia como dirigir aquela coisa. Vi o seu pai. Ele dizia de longe “Pode ir, ela sabe dirigir o carrinho!” Sentei no carro dizendo que fosse devagar. A pequena “A” pulou no meu colo e agora, além de segurar, eu era responsável pela integridade física da mais nova. As tias saíram pra fora e, como todas acenavam rindo, eu achei que não corria perigo. Depois de muitas voltas no carinho e de receber aulas de direção da garotinha de nove anos de idade, eu resolvi que meu cabelo e minhas roupas já cheiravam o suficiente a óleo, ou seja lá qual era o combustível que aquele troço usava.

Procurei pelo Namorido, mas nada! Sua mãe me disse que fosse procurar por ele na casa em frente, a de uma de suas tias. Abri a porta e vi o Namorido, a mais velha das irmã “A” e o pai da menina. Os três estavam muito entretidos, mas logo repararam minha presença. Eles jogavam Garage Band, um videogame de música. Namorido estava com a guitarra, “A”, na bateria e o primo no vocal. Seguindo meu rastro, as duas outras irmãs “A” logo apareceram. A pequena tomou o microfone do pai e a do meio assumiu o baixo. O primo veio conversar comigo. Eu estava no sofá comendo um chocolate que a pequena “A” havia me dado. O primo se aproximou e depois de poucos minutos de conversa, exclamou: “ Agora, eu e o Namorido, temos as mulheres mais bonitas da família.” Sorri meio sem graça. Ele entrou em um quarto e voltou com uma foto nas mãos. Era a sua mulher. Eu perguntei onde ela estava. Ele fez um gesto que eu não entendi. Fechou as duas mãos e pôs elas perto do rosto, uma do lado da outra. Eu fiz uma cara de quem não tinha entendido. Ele se explicou: “Atrás das grades!” dando uma risada. Eu não consegui pensar em nada para dizer então o que saiu da minha boca foi: “Ah..” Então ele começou a dizer como ela tinha medo que ele a deixasse, enquanto ele jurava de pé junto que esperaria por ela. Perguntei quando ela sairia. Ele disse que em 2011. Pensei um pouco e perguntei por que estava presa. Ele responde: “ A gente vacilou! Eu peguei pouco tempo, mas como ela era reincidente, ela pegou mais tempo que eu.” Eu olhava para as três meninas horrorizadas, ter a mãe e o pai presos... não me admirava que todos achavam que eram loucas! Evitei mais perguntas, não por causa do primo, ele não parecia nem um pouco desconfortável em entrar em detalhes, era eu que não queria me aprofundar no assunto. Para minha sorte, minha sogra apareceu chamando todos para o jantar. As duas garotas mais novas correram pra me dar a mão e assim, fui escoltada de volta a casa da Avó.

Eu não consegui deixar de olhar para as três garotas e me sentir mal por elas. Depois do jantar, enquanto todos assistiam TV, me dediquei a brincar de massinha de modelar com as duas mais novas. No meio da conversa a menor olhou para mim com um olhar choroso e disse: “ Eu sinto falta da minha mãe!” Meus olhos se encheram de água. Eu me segurei e disse: “Mas daqui a pouco ela vai estar de volta, você vai ver!” Disse isso tentando me convencer que 2011 estava logo ali! A menina torcendo o nariz fazendo uma careta inesperada disse: “ Como você sabe?” Fiquei assustada sem saber o que dizer. Terrenos nebulosos esses por onde eu tinha me enveredado. Minha experiência com casos de crianças de pais delinqüentes era absolutamente nula! Me limitei a sorrir e mudar de assunto mostrando-lhe como fazer uma rosa de massinha de modelar.

Eu estava exausta de tanto brincar com as meninas “A”, então quando eu me deitei no sofá-cama da sala com o Namorido, aí cai no sono instantaneamente. No outro sofá, na mesma sala, dormia o irmão do Namorido. Eu acordei às três da manhã, com alguém batendo na janela acima de minha cabeça. Cutuquei o Namorido, que mesmo depois de muito ser empurrado, não se movia. Até que resolvi falar: “Tem alguém batendo na janela.” Repeti a frase três vezes, até que ele deu sinal de vida: “Psiu!!!!!!” Eu fiquei sem entender, mas permaneci em silêncio. Ouvi alguém tentando abrir a porta da cozinha, mas esta estava trancada. A pessoa finalmente desistiu. O primeiro a quebrar o silêncio, quase dois minutos depois, foi o irmão, que dormia no outro sofá: “Você ouviu aquilo?” O Namorido respondeu: “ Ouvi, quase me mata de susto.” Foi quando eu percebi que eu era a menos assustada do recinto. Eles me explicaram que a casa fica perto da linha do trem e por ser perto da fronteira com o México, muitos imigrantes ilegais, ao verem as luzes da casa no meio do nada, saltavam do trem e batiam à porta em busca de comida e água. O Namorido também me explicou que a porta da cozinha, por sorte estava trancada, mas se ele tivesse dado a volta e tentado abrir a outra porta, teria entrado na casa, pois esta estava quebrada e não fechava. “ Você podia acabar seus dias morta por um Mexicano sedento!”Na manhã seguinte, o assunto era o visitante noturno. Todos falavam do perigo, mas ninguém parecia realmente assustado. Nos preparamos para almoçar. Fomos parar num restaurante Mexicano. Enquanto esperávamos por uma mesa, a mãe do Namorido me contou que a pequena “A” tinha lhe dito que eu era a sua mãe pela semana. A pequena chegou na mesma hora, e minha sogra perguntou a pequenina se não era verdade que ela queria que eu fosse sua mão pela semana. Ela sorriu, me abraçou e disse que pela semana não, e sim pelo mês! Eu perguntei se isso fazia do Namorido seu pai. Ela abriu um sorriso maior ainda e sentada no meu colo segurava a mão do Namorido e dizia que, pelo mês, nós seríamos seus pais. Quando nós finalmente nos sentamos à mesa, as garotas faziam tanta algazarra que o Namorido não resistiu e falou em português: “Quer ter umas crianças?” Nossos instintos de paternidade e maternidade, naturalmente já inibidos, desapareciam diante de tal demonstração de comportamento infantil!

Depois do almoço, nos dividimos em dois carros. As meninas foram com a avó no outro carro, por que a estas alturas do campeonato, a minha suposta maternidade já havia me esgotado! A prima do Namorido começou a explicar por que a moça da foto que o primo me mostrara estava presa. Ela tinha viajado sozinha para a Florida para encontrar com um “cara”. O primo foi atrás da moça para trazê-la de volta, mas ela não estava disposta a voltar. Durante uma briga pública puxou uma faca para o primo do Namorido. A polícia apareceu e levou os dois. A moça, como era reincidente, pegou mais tempo. Depois dessa história ela continuou: “A mãe delas também é outro caso a parte...” Eu fiquei tonta!!! Como assim? “A moça presa não era a mãe das meninas?” - eu perguntei. Me disseram que não. A mãe, com quem as meninas moravam em Santo Antônio, era separada do pai e tinha outro marido que, por coincidência, também estava preso. Fiquei de boca aberta, mas a história não terminava ai. Com o marido preso, a mãe das garotas agora namorava seu chefe. Morava com as três garotas e sua mãe, também a avó das meninas. A avó era doente, tinha seu próprio quarto na casa e embora vivesse no balão de oxigênio e não saísse para lugar algum por causa da sua enfermidade, tinha um namorado de vinte e poucos anos, que vivia com ela em seu quarto! Minha sogra, balançava a cabeça enquanto o Namorido, rindo, dizia não acreditar naquilo. Depois daquela explicação, eu entendi a careta da pequenina quando eu disse que não se preocupasse que sua mãe logo estaria de volta!

Resolveram que iríamos à praia. Achei engraçado, porque praia era a última imagem que vinha a minha cabeça quando eu pensava em Texas. Uma das adoráveis tias do Namorido teve então uma idéia. Me levar ao monumento a Selena. Ela tinha sido uma cantora mexicana ( na verdade ela nasceu no Texas, mas era filha de mexicanos) que ficou muito famosa nos EUA e foi assassinada pela presidente do fã clube da moça. Ela havia sido baleada na cidade onde estávamos, Cospus Crist. O Namorido morria de rir. Ele sabia que eu não tinha idéia de quem era essa moça, mas que sua família assumia que eu era uma fã por que ela era famosa entre os latinos. “ Mexicanos e brasileiros, tudo a mesma coisa!” brincava o Namorido! Eu fui ver o monumento sem dar sinal de que não estava interessada. Eu e o Namorido morremos de rir da estátua que fizeram em homenagem à moça!

Chegamos em casa exaustos! Arrumei as coisas, pois sabia que aquela seria a última noite. Na manhã seguinte, eu e o Namorido iríamos a Austin. Acordei e em poucos minutos as duas meninas “A” apareceram. Pinotaram, gritaram, me abraçaram, pediram que eu as levasse com elas, mas finalmente o pai apareceu e fez com que se comportassem. Nos despedimos de todos e, finalmente, entramos no carro. Olhei para a paisagem ressecada, para os carros velhos enferrujando e para as duas meninas. O Namorido me perguntou no seu português engraçado: “ Você divertiu?” Eu ri, dei uma última olhada para a casinha de Granny e disse: “ Com certeza uma bela aventura!”

domingo, março 23, 2008

A porta do Diabo


Era mais uma daquelas revelações! Eu detestava admitir, por que isso me colocava na mesma laia que o Namorido(*1), mas revelação era o melhor termo. Eu chamo de Porta do capeta essa minha revelação! Uma passagem aberta no ano passado, por onde toda a certeza amorosa que se empenhava em manter meu relacionamento se foi. Depois de tantas “maldades” sofridas nas mãos do Namorido, era difícil acreditar que tudo ficaria bem. Várias correntes filosóficas tentavam me apaziguar os nervos pelas vozes de minhas fiéis amigas:

“Ele é apenas imaturo, uma hora ele vai amadurecer!”

“Você tem que aceitar as pessoas como elas são, pensar que você pode mudá-lo é ilusão.”

“Daqui a pouco aparece alguém muito melhor e você vai é rir disso tudo.”

“Podem falar o que quiserem, mas eu acho que vocês vão se entender.”

“Não sei o que mais ele precisa fazer para provar que não é uma pessoa boa!”

“Mermã, não sei como é que tu agüentas!”

Em meio a tantas opiniões, algumas delas vindas de dentro da minha própria cabeça, eu me vi com a mão na maçaneta da Porta do Capeta. Essa é uma portinha pequena, mas que tem o poder de crescer se não for fechada a tempo.

Era um sentimento ao qual eu já tinha me desacostumado: a volta de uma certa percepção, do que eu causava nos demais ao meu redor, mais especificamente nos homens. A última vez que eu estive ciente disso foi quando o Motivo me fez ir de salto alto ao trabalho. Impressionante o poder do salto alto! Agora eu me via longe de Nova Iorque e a percepção do sexo oposto me atingiu como uma bofetada.

Durante todo o tempo em que eu tinha estado apaixonada pelo Namorido, os rapazes passavam meio despercebidos... quer dizer, não tanto. Eu sempre tive olhos para os homens absurdamente bonitos, mas confesso que estava perdendo a mão na hora de perceber o desconforto que é causado quando um homem se interessa por uma mulher, especialmente, quando essa mulher era eu. Dessa vez, foi diferente. Cheguei ao Brasil mais atenta aos olhares! Pesquisas científicas dizem que as mulheres têm a visão periférica mais desenvolvida do que os homens, enquanto esses têm a visão objetiva mais eficiente. Eles até atribuem a isso a incapacidade dos homens de acharem a perdida chave do carro dentro de um quarto pequeno. Eu acho que as mulheres têm a visão periférica desenvolvida para perceberem quando estão sendo observadas. É um dom extremamente feminino. Você não tem que olhar sequer virar a cabeça; pela imagem borrada formada no canto do seu olho você tem a denúncia: alguém está olhando para você! Daí basta uma inventada necessidade de arranjar os cabelos para desviar a visão e confirmar a suspeita. O meliante é pego em flagrante e, muitas vezes, nem se percebe desmascarado.

Além dos olhares, me pareceram também mais explícitos os gestos de cavalheirismo. Quantas foram as gentilezas para comigo. Quantas portas abertas, cadeiras puxadas, favores ofertados, presentes inesperados... Onde toda essa gentileza foi parar nesses últimos anos? Ela sempre esteve lá, eu passava despercebida por ela? Teria eu cometido tal crime ou teria sido a mão na portinha do Coisa Ruim, a porta das possibilidades que tinha me trazido de volta tal agrado.

Muitas vezes, na tentativa de me consolar, muitas de minhas amigas diziam que eu não teria dificuldade em encontrar um novo alguém. “Você pode ter o homem que quiser apaixonado por você!” Eu, relevando o exagero do “o homem que quiser”, tinha que concordar que achar outro pretendente não seria tarefa difícil. Eu tinha que admitir meu lado Casa Nova, como minha amiga da Chechênia gosta de chamar, ou seja, Don Juan! Esse era um talento que eu sempre soube que eu tive: a de conseguir manter o interesse dos pretendentes, uma vez que a relação se estabelecesse verbalmente. Nada muito anormal, nenhuma inteligência suprema, apenas uma facilidade enorme em descobrir o que cada um deles precisa ouvir para que os seus olhinhos brilhem. Uma combinação infalível de cinema, música, uma rasa pitada de artes plásticas, uma sofisticação displicente na hora de escolher o vinho, uma pitada de surpresa e subversão pela revelação do interesse em arte seqüencial (nome científico de histórias em quadrinho) e lutas marciais ( eu fiz jiu-jitsu por um ano, e sim! Eu adorava!). Era um mistura quase que 100% certeira! As vezes, eu mesma me repreendia quando me percebia usando a mesma velha fórmula. Eu pensava que os anos passavam, algumas coisas eram adicionadas na lista de qualidades, o nível de confiança na fórmula ia crescendo e os homens parecendo cada vez mais previsíveis! Alguns, claro, ultrapassavam as frivolidades e conseguiam chegar a um nível mais profundo da minha identidade, limites onde as coisas são mais confusas e imprevisíveis, mas ali, nas águas rasas das primeiras conversas casuais, era batata! Essa habilidade virou lenda no decorrer dos anos: por que eles sempre ligam no dia seguinte?- perguntavam, minhas amigas! Difícil era convencê-las de que aquilo não acontecia por causa dos meus grandes olhos castanhos!

Eu passei a criticar meus próprios métodos, racionalizar o não racionalizável. Processos auto-críticos concluíram que meu método havia sido criado inconscientemente, por isso, era genuíno e irrepreensível, assim a culpa foi por água abaixo. Além disso, eu mesma só conseguia identificar que estava atando mais um às minhas teias de viúva negra, quando era tarde para retroceder. Atire a primeira pedra quem não obtém prazer em ser admirado!

Claro que nesse ano somou-se a toda essa desenvoltura, alguns atributos tanto novos quanto irritantes: a residência em Nova Iorque e a carreira no cinema. A freqüência com que olhos se chamuscavam com faíscas quando esses atributos eram mencionados, geralmente por terceiros, se tornou irritante desde o princípio. Essas eram qualidades que eu não ostentava, nem gostava de ter agregadas. Essas tinham sido as férias dos Cinderelos, tentando espremer seus pezinhos, não tão delicados, em finos sapatos de cristal. A última vez que aquilo havia acontecido em minha vida, eu tinha apenas quatorze anos. Tempo suficiente tinha se passado para que eu me esquecesse do sentimento que aquilo despertava dentro de mim, mas também para desenvolver uma enorme desconfiança sobre esses Romeus, tão rapidamente arrebatados por encantos, que eu nem mesmo entendia como funcionava!

Vislumbrei todos os Montecchios, anestesiados de paixão, pela fresta entreaberta da portinha do Coisa Ruim! Um pavor tomou conta de mim. Era o que eu mais temia! Difícil dizer isso sem parecer insuportavelmente antipática, mas meu medo não era o de não encontrar alguém que me amasse depois do Namorido, e sim o de não encontrar alguém que eu pudesse amar incondicionalmente como antes. Mesmo antes de conhecer o Namorido, a portinha do Cramulhão era o meu pior pesadelo. Era inconcebível para mim como, diante do mar de possibilidades que se encontrava por trás daquela porta, alguém pudesse pensar em algo para sempre. Deus (e o Diabo, é claro) sabe como, mas em um momento da minha vida essa porta foi fechada e agora lá vinha ela me atormentar! A sensação de incapacidade de retribuir a afeição incondicional e eterna de uma pessoa, o medo de mudar de idéia. O medo, que deveria ser apenas o de não ter aquela pessoa ao seu lado... tudo aquilo tinha saído de lugar.

Os céus atenderam as preces e me enviaram não apenas um, mas vários pretendentes com os pré-requisitos que eu mesma havia ditado: maduros, tranqüilos e adoradores da minha pessoa. Eram como as porções no Texas(*2), muito maiores do que o que você é capaz de processar. Aqui estou eu, com minha caixa de Pandora entreaberta, olhando para os lados, sem saber se alguém vai aparecer correndo para me impedir de abri-la. A paz havia sido quebrada, e nem eu mesma sabia se esta seria passível de ser novamente instaurada. Talvez eu estivesse abrindo a porta temporariamente, talvez alguém viesse correndo e a trancaria para sempre, talvez eu a fechasse por vontade própria, ou talvez ela mesma se fechasse para mim e eu acabaria, como diria Chico Buarque, “Num tapete atrás da porta”. Por enquanto, em meus sonhos tudo era regado ao blues de Madeleine Peyroux, meu peixe favorito era Nemo, e a língua falada o Francês.

(*1) Menção ao texto Revelação, publicado no dia 09 de novembro de 2007.
(*2) Recorrer ao texto Pequenos apontamentos sobre coisas não tão pequenas..., escrito em 29 de Dezembro de 2005.