domingo, outubro 07, 2012

Sonhos de uma noite de verão.

 Tudo começo numa quente tarde de verão caminhando com um amigo brasileiro por Union Square. Nós passamos em frente a uma livraria muito grande aqui nos EUA e vimos um cartaz promocional. O cartaz dizia que em determinado dia, Glen Hansard, um músico Irlandês que eu amo de paixão, estaria na dita livraria assinando CDs. Pensei comigo mesma, se ele está aqui é por que vai fazer show. Fucei na internet, e descobri as datas que coincidiam com a chegada de outro amigo brasileiro que estaria em NYC. Comprei dois ingressos pensando nesse amigo.


O tempo passou e meu amigo chegou. Contei para ele dos ingressos, ele se animou e estava tudo combinado. Nós nos encontraríamos na livraria, pegaria meu autógrafo, a gente jantaria e depois iria para o show. Desencontro clássico de brasileiro sem telefone em NYC... esperei muito, mas ele nada de dar as caras, acabei indo só e atrasada para a livraria.
Quando cheguei lá, não só todas os acentos estavam tomados mas atras das cadeira arranjadas para o evento, uma multidão de gente, pois antes dos autógrafos ele iria tocar algumas músicas. Nem nas pontinhas dos pés eu podia ver nada. Fiquei triste, mas resolvi ficar.

Glen Hansard para quem não conhece é um encanto de pessoa... engraçadíssimo. Tocou duas músicas e se sentiu muito incomodado com a multidão atras das cadeira onde eu estava. Na opinião dele tinha muito espaço mais perto do pequeno palco onde as pessoas poderia ver a performance melhor. A contra gosto da segurança do lugar, a faixa que separava as cadeira e as pessoas de pé onde eu estava foi removida. Onde eu fui parar? Sentada no palco com mais meia dúzia de sortudos. E foi assim que eu ouvi ele cantar, tocar e conversar fiado, as um metro e meio de distância do cara.

Saí de lá em estado de graça, tão feliz que nem liguei de ficar na fila para pegar autógrafo. Hora, mas se eu tinha sentado no palco de um ganhador do Oscar de melhor trilha sonora original... eu lá preciso de autógrafo!!!!

Fui jantar só quando meu amigo finalmente me ligou. Estava na casa do amigo que o hospedava, mas o amigo tinha saído sem chave de casa e se ele saísse o amigo ficaria trancado na rua. Dilema, esperei até a última hora o tal do amigo voltar do lado de fora da casa de show, mas nada... Acabei chamando uma amiga minha na última hora, mas por causa da espera, quando nós entramos, acabamos ficando muito longe do palco. Para piorar a situação, nesse show estavam as pessoas mais altas do mundo!!!! Sem brincadeira!!! Nunca vi tanta gente alta no mesmo lugar. Eu pobre coitada, anã em meio aos gigantes, quase choro de tristeza. Minha amiga, que é brasileira e nunca desiste, rodou o lugar todo até encontrar um lugarzinho que de dava para eu mais ou menos ver show.

Como alegria de pobre dura pouco, percebi que um cara que tinha ido comprar cerveja, estava voltando. Pela cara das pessoas na nossa frente, eles eram amigos e o grandalhão ia se enfiar na minha frente. O homem era uma parede de grande mas, para a minha surpresa, ele parou do meu lado. Respirei aliviada!

Entrei total no clima do show. Estava bem cantarolando uma das minha música favoritas quando o grandalhão se encurvou um pouco e se dirigindo a mim disse: “ Ele é muito bom, né?” Minha amiga nos observou de rabo de olho, mas eu só balancei a cabeça que sim, sorri e continuei vidrada no show. Pouco tempo passou quando um dos caras na nossa frente viu o Grandalhão tão afastado deles. Ele perguntou o que ele fazia ali tão para trás e por que não se unia e eles. O grandalhão respondeu apontando para mim e minha amiga: “Não, eu sou muito alto, vou ficar aqui mesmo.”

Antes que pensasse na repercussão, já tinha respondido: “Você é muito fofo!” “Fucking fofo, né?”- respondeu o enorme samaritano. Abri o maior sorriso, primeiro por que achei engraçada a resposta, segundo por que ele tinha sido fofo de não entrar na minha frente e terceiro, por que reconheci um sotaque estranho.
Quem leu meu último texto sabe do poder do sotaque, por isso perguntei: “De onde você é?” E a resposta foi encantadora: “Dublin”. Ah, o bofe é Irlandês!

O único probleminha com o sotaque dele era que eu só entendia 40% do que ele dizia, o resto eu só balançava a cabeça e sorrira. Mesmo com toda a fofura do mundo, quando me virava pro palco e via o Glen Hansard, era como se o mundo só fosse ele, por isso o grandalhão saiu do meu pensamento. Agora, amiga que é amiga chama a gente na besteira, e foi isso que a minha fez. Reparando que tinha largado o bofe de mão, já por um tempo, aproveitou uma brecha pra me alfinetar. Quando comentei, quase que hipnotizada pelo show:

Oh mulher, mas é lindo o Glen, né?”- ela respondeu na hora.
Lindo é esse menino que falou contigo e tu não tá dando a menor bola, tu acha que eu não vi?!”

Ela estava certíssima, o bofe era um espetáculo. Alto, ombrudo, uma barbinha por fazer do jeito que eu gosto...! Fiz o que tinha que ser feito: abri um sorriso que praticamente engolia minhas orelhas e perguntei para ele as coisas básicas: a quanto tempo estava aqui, quanto tempo ia ficar, o que vinha fazer... De todas as respostas que ele me deu, só entendi que ele havia chegado a um mês. Oh povo para falar rápido e enrolado, acho que Irlandês é o piauiense da Europa nesse sentido. Ele perguntou se queria beber algo. Disse que só uma água. Ele buscou um copo de água. Estava sedenta e em dois goles terminei minha água. De repente, ele tirou o copo da minha mão e colocou outro cheio no lugar. Eu agradeci. Se não fosse suficiente, ele passou o resto do tempo tentando achar melhor ângulo para que eu assistisse o show.

Depois de algum tempo de conversa, e quando digo conversa, quero dizer, ele falando rápido e eu fingindo que entendia, alguns amigos Irlandeses chegaram. Não havia reparado direito quando minha amiga me cutucou e falou em bom piauês:

Mermã, que diabo é isso? A gente tá arrudida de homi , se são tudo enormes. De onde que saiu esse tanto de homi grande.”

Eles não eram só grandes, eram todos lindos. “Mermã, acho que a gente morreu e foi pro céu. Não te disse que todo o nosso trabalho duro na terra ia ser recompensado mais cedo ou mais tarde.”- respondi debochada. O grandalhão disse que tinha que ir para o bar do outro lado da rua fazer alguma coisa que fingi que entendi, mas que voltaria em 20 minutos, que esperava me ver quando voltasse. O problema é que o show acabou antes dele voltar. Enquanto nós íamos saindo andando a passos de tartaruga, descobri que minha amiga estava hipnotiza pela beleza de um do altões. Desculpa perfeita para o meu subconsciente, que deixa eu mover mundos e fundos pelas amigas, mas tem o limite de tolerância bem baixo para correr atrás de homem. Então oficialmente, eu comecei a caçar o bofe da minha amiga, mas estava mesmo era atrás do meu.

Nós entramos no bar onde os meninos estavam. Vi o bofe da minha amiga, mas nada no meu. Os altões de repente todos saíram do bar e foram embora. Tinha acabado de comprar duas cervejas que não estava com a menor vontade de beber, só pra ter uma desculpa para ficar no bar... quando a tristeza começou e me corroer, vi pela vasta janela do restaurante o Grandalhão voltando. Entrou no bar como se tivesse uma missão, obviamente ele havia se perdido do resto do grupo. Acenei do bar, mas como não estava na altura do olhar dele, o infeliz passou direto e saiu do bar novamente. Aí que a tristeza bateu mesmo. Pensei comigo que o universo tinha me dado outra chance e eu não pulei na frente do homem com uma melancia na cabeça para ele me ver.

Minha amiga avistou outro menino bonitinho e resolveu olhar para ele para afogar as mágoas. Ela deu uma olhadinha e o gato chegou junto. Achei aquilo muito estranho considerando o comportamento local. O menino abriu a boca: brasileiro! Agora estava explicado! O menino era a criatura mais boba e desinteressante, sorte dele que tinha uma carinha bem aceitável para gente aguentar a bobagens que ele estava falando.

Minha amiga bem conversando com ele quando dei um pulo na minha cadeira. Um por um eu vi os altões passando pela janela do bar em direção a entrada. Foi tudo em câmera lenta, todos ele depois um tempinho sem ninguém passar pela janela e por último: o Grandalhão em toda sua lindeza. Eles foram entrando, até que o bofe apareceu, eu e minha amiga, as duas acenamos, ele olhou sorriu e passou. Eu esbocei ficar triste, mas antes que tivesse tempo, ele parou, fez uma cara de confuso, e voltou. Foi quando reparei que ele não tinha me visto, só minha amiga.

Ele veio falar comigo, eu mencionei que era a segunda vez que ele passava por mim sem perceber que eu existia, ele pediu desculpas explicou o que eu já sabia: que estava perdido dos seus amigos. Alguns dos altões vieram conversar com a gente de depois de alguns minutos, nós percebemos que o brasileiro tinha ido embora e a gente nem reparou. Coitado, o menino era bonito, mas perto daquele harém invertido, ele não pegava nem gripe.

Conversa vai, conversa vem e eu falei para o Grandalhão que havia virado cidadã americana. Ele olhou para me e sem cerimônias disse:

Você quer casar comigo? Eu preciso de um green card, sou capaz de fazer qualquer mulher feliz.”

Não tenho a menor dúvida da capacidade do bofe, mas tive que dizer que estava resolvida a voltar ao Brasil antes do fim do ano. Ele disse que o jeito era aproveitar ao máximo o tempo restante. Eu sorri. Os amigos aglomeraram e de repente a má notícia: “Nós estamos indo, posso pegar seu telefone?” Antes que respondesse ele mesmo continuou: “Não, né? Desculpa, não devia ter pedido!” Agora, eu penso com os meus botões: Um infeliz desse só pode nunca ter visto um espelho na vida! Que mulher no seu juízo perfeito não daria o telefone para um homem lindo e gente boa? Quando ele ia se virando para ir embora, eu comecei a rir e puxei ele pela camisa:

Anota meu telefone seu bobo.”

Ele anotou e tentou me ligar, fiquei olhando para o meu celular, esperando tocar e nem percebi que ele tinha me dado as costas. Foi quando disse:

Meu telefone não está tocando, você tem certeza que colocou o número certo?”

Ele se virou rápido com uma cara de susto tentando desligar o telefone rapidamente quando deixou escapar:

Acabei de pedir um beijo para uma pessoa estranha...”

Awwwww.... que BUNITIM!!!!!! O jeito foi beijar o rapaz. Depois de um beijo espetacular, olhei para ele que continuava por alguns segundos com os olhos fechados:

Uau, que beijo é esse? Me dâ o telefone certo! Que eu preciso te encontrar!”

A gente sabe que a tecnologia foi feita única e exclusivamente para deixar a gente na mão quando a gente mais precisa. Eu tentava ligar para ele e o telefone dele nada, ele tentava ligar para mim e meu telefone nada. Já era quatro horas da manhã e isso estava dando nos meus nervos. Ele pegou meu celular. Anotou o número dele e o do amigo, caso o dele não funcionasse. Você liga para quem precisar, mas me ache!

Entrei no táxi suspirando e digerindo as orelhas que a muito tempo tinham sido engolidas pelo sorriso incontrolável que havia invadido meu rosto. Peguei meu celular e mandei uma mensagem para os dois números de telefone que ele havia anotado:

Olá Grandalhão, aqui é a Laura. Beijos ;)”

Continua...

sexta-feira, março 16, 2012

Vão-se os cenários, ficam os personagens...

Sei que já faz mais de um ano que não escrevo. Para os que sempre me perguntam por que não invisto na carreira de escritora? Aí está a sua resposta, as vezes simplesmente não consigo escrever!

Esse são meus últimos meses em New York, acabei, ao contrario do esperado, passando mais um inverno aqui na selva de pedras. A cidade parece mais linda que nunca, o inverno com temperaturas primaveris parece ter sido arquitetura divina, desenvolvida especialmente para fazer minha partida ainda mais difícil.

A decisão foi feita, New York não é uma cidade onde gostaria de envelhecer, mas o medo de não me adaptar com a vida na terrinha tupiniquim anda me desprovendo de várias noites de sono. Adicionando a ansiedade: New York não é a única coisa que deixo para trás. Ficam também sete anos de amizades e planos, por isso decidi visitar meu amigos que vivem nos EUA, os que sempre planejo ver, mas nunca consigo!

Essa semana finalmente me organizei para visitar uma amiga de faculdade. Diferente de mim, bacharel em teatro, minha amiga iniciou sua formação em Cinema de Animação na escola de Belas Artes de Minas Gerais e depois de completar os estudos na Universidade do Texas, se casou com outro animador. Agora, os dois vivem “felizes para sempre” na belíssima cidade de São Francisco, California.

Aqui nos EUA, São Francisco é considerada a cidade de clima perfeito, nunca muito frio ou muito quente. Claro que as minhas preocupações atuais tem feito escuras nuvens sobrevoarem minha cabeça por onde quer que eu vá, e elas me acompanharam a São Francisco. Dos 4 dias passados em São Francisco, tive um dia de sol, um nublado e chuvisquento, e de resto, chuva forte 24 horas por dia.

Minha amiga e seu marido chegaram ao aeroporto para me buscar, assim que entro no carro, a notícia: Vamos a Napa! Teríamos que buscar um amigo do marido que nos acompanharia e seguiríamos rumo as montanhas. A segunda notícia me foi dada com a sinceridade quase cruel que só minha amiga possuí: “ Infelizmente, o amigo charmoso do meu marido não pode nos acompanhar, mas esse outro amigo é bem gente boa!” Quase morri de rir e respondi com uma pergunta tão sarcástica quando a informação foi sincera: “Como assim você só tem um amigo charmoso?” Foi assim, rindo do humor negro que mascara minhas ansiedades e fragilidades que fomos buscar o amigo não-charmoso.

No caminho da casa do não-charmoso nos perdemos enumeras vezes, graças a inabilidade de minha amiga se concentrar no GPS por mais de dois segundos. Gloriosa oportunidade de observar um casal, apaixonado implicando um com o outro. Nós somos seres estranhos, nos casamos para passar o resto da eternidades apontando os defeitos um dos outro, com um sorriso no rosto. Apaixonados e críticos minha amiga e seu marido conseguiram finalmente chegar ao endereço desejado. Ela não estava mentido: o que o amigo não tinha de charme, ele tinha de legal! Assim o nosso grupo estava formado, minha amiga da língua solta, seu marido apaixonado, seu amigo não-charmoso e a novaiorquina rabujenta!

Napa é considerada a região onde são produzidos os melhores vinhos americanos, na minha opinião alguns dos melhores vinhos do mundo. Se não fosse suficiente esse interessantíssimo inside da indústria, visitaríamos uma das vinícolas mais bonitas da região. Recém chegada de New York, a vista da estrada de São Francisco para era o paraíso. Montanhas verdes até onde a vista alcançava, flores de todas as cores imagináveis, bucolismo em toda sua excelência. Minha amiga que não faz segredo a vontade de me ter como vizinha, usava cada suspiro que meus lábios produziam como embasamento de sua tese de que minha felicidade repousa entre as gloriosas montanhas californianas.

Quem me conhece sabe, que nessa história, minha amiga não é a única tagarela, falo mais do que podre na chuva. E claro que como gerente de restaurante cercada de animadores por todos os lados, estava no meu elemento: vinhos californianos! Deus sabe que quando estou na minha área, sou uma ótima guia. Experimentamos diversos vinhos enquanto explicava aos meus acompanhantes os diferentes processo de fermentação. As vezes até eu mesma estranho o quanto aprendi sobre vinhos e outras bebidas, principalmente considerando que no último ano, me recusei a ler uma página que fosse sobre o assunto.

Minha amiga fica bêbada só de cheirar vinho, por isso no fim da degustação ela já estava dizendo que queria ir para casa pintar o cabelo de loiro, entre essa, vinham outras idéias de bêbado. Seu marido ia logo atrás com uma carinha de sono e indisfarçáveis bochechas vermelhas, ainda bem que ele não tinha nenhum cabelo a ser ameaçado por níveis alcoólicos. Eu e o amigo parecíamos ser os únicos que conseguiam beber sem representar risco as nossas cabeleiras.

Sorvete, jantar... e foi assim que acabei o meu dia, pensando que tinha feito todas as escolhas erradas e que aquilo sim é que era vida!

As nuvens negras me trouxeram outra má notícia além da chuva. Minha amiga que tinha acabado de voltar de uma entrevista de trabalho em Los Angeles, foi surpresa por um teste de animação, horas e horas de desenho que teriam que ser terminados durante minha estadia. O maridão veio ao restagate, pobre coitado do rapaz que havia acabado de me conhecer, foi gentil e me convidou para almoçar no seu trabalho. Vocês devem estar pensando: “Programa de índio, almoçar no trabalho do cara!” Vocês estariam certos se não fosse por um pequeno detalhe: Ele trabalha na Pixar Studios, o paraíso para onde todos os nerds que sofreram durante suas vidas escolares vão para ser felizes quando adultos. Talvez minha amiga estivesse certa, talvez fosse ali onde minha felicidade repousava, entre tantas pessoas felizes passeando pelos corredores de patinetes.

Depois do almoço, segui só para a cidade de São Francisco. O amigo não-charmoso tinha feito um itinerário não turístico de São Francisco para mim. Andei a tarde toda e me perdi no segundo pior dos meus vícios: brechós! Meu primeiro vício são os livros, meus segundo, roupa velha! São Francisco é para mim o que Las Vegas é para uma pessoa que joga compulsivamente! O inferno onde nos queimamos felizes. No meio da tarde, quando já tinha gastado bem o solado da minha Melissinha, recebo uma ligação. O maridão de novo. Lá ia o pobre coitado me levar pra sair a noite com alguns amigos de trabalho.

Eu, bem mulherzinha, achei que ia em casa tomar banho e me emperequetar, mas não, no caminho de casa o bom samaritano me liga e pede para que eu me encontre com ele no trabalho. Com a maquiagem vencida e cheirando a poeira de brechó, vou eu de volta para a Pixar, foi a primeira vez que achei bom o fato de San Fran ser povoada por hippies e gays! Toda empoeirada e descabelada, eu me senti como uma local.

O maridão me encontrou no estacionamento do seu trabalho com o não-charmoso e outro amigo. O outro amigo era muito alto, meio loiro e tinha um jeito de bad boy. Tudo isso não seria suficiente para me impressionar, eu já sabia o que ele fazia para sobreviver, o que na minha opinião é tudo de bom, mas foi quando ele abriu a boca que o mundo “turned into love songs*”,como diria Piaf. O mesmo humor negro que me faz reclamar até que o verde das montanhas era verde demais, mas com um pequenos detalhe: sotaque britânico! Difícil explicar, o quão mais bonito um homem ficar com sotaque britânico nos EUA ( irlandês, escocês, australiano também tá valendo). É como se tudo que ele dissesse parecesse automaticamente 50% mais engraçado e mais inteligente.

O cara era absolutamente desprovido das qualidades físicas que me atraem em um homem, e durante toda a noite, me perguntei se eu achava ele atraente ou não. Bebi e falei bobagem a noite toda, como se eu fosse um dos meninos. Cheguei em casa para achar minha amiga exausta, mas não o suficiente para quer todos os detalhes. Eu não sabia, mas tinha acabado de conhecer o amigo charmoso. Agora tudo se explicava, por mais que não achasse ele uma Brastemp fisicamente, tenho que admitir que passei a noite toda pensando em como parecer, engraçada, inteligente e charmosa ao máximo das minhas habilidades.

Meu cahrme não passou despercebido, mas pela pessoa errada: “O amigo não-charmoso ficou doidinho com ocê.” disse minha amiga com seu sotaque mineiro. Bonito para minha cara!

O outro dia amanheceu molhado, muito molhado! Aquela chuva cretina com cara de que vai cair o dia todo, e caiu. Minha amiga que a essas alturas estava perto de terminar o tal teste não via a hora de sair e se enfiar nos brechós de São Francisci comigo. Tenho um talento que sempre que posso devido com os amigos, mesmo nos brechós mais fedidos e bagunçados, consigo encontras as roupas mais lindas sem muito esforço, roupa velha é comigo mesmo!

Descabelada, empoeirada e dessa vez molhada é como eu estava quando o maridão sugeriu que saíssemos direto dos brechós para encontra a turma do dia anterior para jantar. Catei minha amiga, corri para casa e tomei banho, “O cão que sai nessa inhaca de novo!”- protestei. Tive que terminar minha maquiagem no banco de trás do carro, no escuro e sem espelho. Impressionante o que uma mulher consegue fazer quando quer impressionar um homem: aplicar rímel perfeitamente as cegas! Acho que isso é um talento dígno de fazer parte de um currículo profissional.

O não-charmoso, que havia feito as reservas estava obviamente tentando me impressionar, e conseguiu. O lugar era a coisa mais linda do mundo, mas ainda não o suficiente para fazer com que ele mesmo ficasse mais bonito. Saímos dali para um bar. Devia saber que o lugar ia ser estranho, pois se chamava Bum Bum. Lá estava eu no Bum Bum, linda e batonzuda, querendo piscar meus cílios miraculosamente maquiados para o amigo charmoso, mas o outro amigo não tirava o pé da janta. Minha amiga convocou uma reunião emergencial no local de costume: o banheiro. O amigo charmoso não parava perto de mim por que o outro tinha abertamente declarado temporada de caça a Laura. Código de amizade diz claramente que se um amigo vê a gata antes ele tem prioridade. Além de achar roupa velha em lugares empoeirados e me maquiar as cegas, eu possuo um outro talento muito providencial: penso rápido. Assim quase que automaticamente essa palavra saiu da minha boca: “Escape!” O plano era simples e genial, a gente se despediria, cada um entraria no seus respectivos carros, e em local predeterminado, seriam mortos dois coelhos com uma cajadada só (expressão horrível sendo usada por uma pessoa vegana): eu encontrava o charmoso e minha amiga levava o quase adormecido maridão para descansar.

A chuva e o fato de ser uma terça não nos ajudaram a encontrar um lugar para sair, por isso o charmoso me sugeriu um drink no seu apartamento, mas me alertou que o lugar estava uma bagunça. Sabe quando a pessoa fala que o lugar está uma bagunça, mas quando você chega lá só encontra uma panela usada na pia? Pois é, esse não era o caso. Era óbvio que ele não ficava em casa muito tempo. Era como se um gigante tivesse pego o apartamento dele e sacodido como uma criança sacode um presente de natal que não pode ser aberto antes da meia noite. O chão, a mesa, a pia, o banheiro, o sofá, todos cobertos aleatoriamente com objetos pessoais, roupas, sapatos e incontáveis carteiras de cigarro.

Passei a noite sentada na cama, o único lugar que não estava coberto de tralhas, enquanto ele sentado na frente de uma lareira apagada soprava nuvens de Malboro para fora do apartamento. Ele adorava falar, e cada pergunta que eu fazia era acompanhada por vinte minutos de confissões. Difícil de acreditar que ele tinha apenas 33 anos e tantas histórias para contar, me senti imatura, lá estava eu sentadinha na cama com meus pezinhos que não alcançavam o chão, sentido a expressão do meu próprio rosto amolecer enquanto um sorriso involuntário se formava. A luz do dia revelou uma pilha de cigarros inacreditável, segundo ele um mês de bitubas na varanda do lado de fora da janela. Além da severidade do seu vício, a luz do dia revelou o verde dos olhos daquele “senhor” de 33 anos, quase mais bonito que o das montanhas de Napa.

Sabe aquele ditado que diz que a noite todos os gatos são pardos? A maioria de nós gatos somos mais bonitos a noite, mas de vez em quando um outro felino aparece com essa peculiaridade: beleza matinal! O que estava na minha frente era exactamente isso, uma dessas pessoas que ficam mais bonitas quando o dia amanhece. Me despedi e entrei em casa para satisfazer a curiosidade de minha amiga.

Fiquei pensando como alguém podia ser assim, tão mulherzinha como eu? Conversar com um cara por dois dias e sair boquita*! Foi quando questionei como era possível que o verde dos olhos do charmoso me parecia mais convidativo do que o da paisagem de Napa.Talvez, por que tivesse chovido tanto, não tivesse visto as belezas naturais de São Francisco propriamente... Mas acho que embora eu seja na maior parte do tempo a personificação da rabugice, I am a people person. Gosto de gente, de histórias e de experiências de vida. Adoro os cenários, mas me apego mesmo é aos personagens. No fim das contas o melhor de São Francisco foi rever minha amiga e conhecer três novas pessoas, todas muito bacanas, umas mais charmosas que as outras, mas todas maravilhosas.

Quanto a tese da minha amiga sobre minha felicidade caloforniana, ponderei sobre ela no taxi no caminho do aeroporto para casa. Fiz isso relembrando uma conversa de bar que tive com os meus três novos amigos . Respondendo a questão levantada pelo não-charmoso de qual seria sua vida/carreira ideal se pudéssemos escolher, maridão respondeu primeiro: "Gostaria de ser um marinheiro desbravador e aventureiro", seguido pelo charmoso que respondeu irreverentemente: "Seria podre de rico para não ter que trabalhar. Teria um barco para navegar entre as ilhas do mediterrâneo que seria pilotado pelo meu amigo marinheiro aqui!". Pensei pelo turbilhão de emoções que estou sentindo com essa decisão de voltar ao Brasil. Olhando a chuva que havia me acompanhado de São Francisco que agora caia sobre New York pela janela do meu taxi, respondi a mim mesma: "A vida ideal seria morar em NYC, com todos meus amigos e familiares como vizinhos, trabalhando como figurinista de teatro e namorando alguém igual ao charmoso". Ah... Estou enganado quem: "namorando O charmoso!"


* Tradução: “se torna uma canção de amor”, trecho da música La vien rose (versão inglesa) eternizada pela diva francesa Edith Piaf.

* Boquita é uma expressão criada por uma das mulheres mais engraçada que eu conheci na época de faculdade, se refere a quando a gente está tão feliz que não consegue parar de sorrir.

Sei que já faz mais de um ano que não escrevo. Para os que sempre me perguntam por que não invisto na carreira de escritora? Aí está a sua resposta, as vezes simplesmente não consigo escrever!

sexta-feira, janeiro 14, 2011

O último inverno é menos tenebroso








O desejo insaciável; a busca constante pela felicidade que nos cega com seu caráter efêmero; a ilusão de um amor idealizado; a ambição que nos foi ensinada de berço assobiando: “Você pode ser qualquer coisa. Seu sonho é limitado apenas por você mesma”: Vivemos num mundo projetado para nos impulsionar para frente; devemos ser ambiciosos, focados, trabalhadores, temos que ter sempre um plano para o futuro. Temos que desejar, que sonhar, por que o nosso mundo é cheio de possibilidades.




Meus avôs maternos tiveram uma vida muito bonita, mas dura, acordando cedo, trabalhando na fazenda, cozinhando em fogão a lenha. Minha avô, professora primária, sempre soube o que fazer com seus cinco filhos: doutores! Dona Glória e seu Quinzinho, do interior de Minas Gerais, mandaram os cinco filhos para a universidade, tudo em nome de uma vida melhor. Minha mãe, arquiteta, que fez faculdade na capital, aprendeu que sair de casa jovem para estudar, torna as pessoas mais independente, por isso não perdeu tempo: filha pra Belo Horizonte e filho pra Recife.



A vida cultural tumultuada dos tempos da ditadura militar combinados com o horror a repressão ensinaram meus pais que os sonhos e a liberdade de escolha e expressão são sagrados, por isso, quando a filha resolveu fazer teatro, ela foi super apoiada.






A paixão pelo teatro se transformou em profissão figurinista. Mais tarde, buscando felicidade plena, que na nossa idéia romantizada de vida sempre passa pelo amor perfeito, a filha se muda para Nova Iorque. Passa o pão que o diabo amassou, mas começa a finalmente trabalhar com cinema. O amor cai por terra, a carreira também, de uma forma quase impossível de ser explicada.






Agora trabalhando de gerente em um restaurante muito bonito em Nova Iorque, depois de um dos piores anos de sua vida, a filha resolve voltar pra casa. A terra das oportunidades decadentes, de repente parece perder a luz. A filha para e se pergunta:





“Mas e meus sonhos? Sempre acreditei que podia ser tudo que quisesse se eu trabalhasse duro. O que aconteceu comigo? Amoleci? Perdi a coragem? A determinação?”






A filha da arquiteta resolve ir ao centro da cidade que nunca dorme pedir inspiração lembrando do refrão da canção do auto-intitulado Novo Sinatra:



In New York,
Concrete jungle where dreams are made of,
Theres nothing you can’t do,
Now you’re in New York,
These streets will make you feel brand new,
The lights will inspire you,
Lets here it for New York, New York, New York




Talvez as luzes a inspirassem e ela sentisse novamente que não há nada que ela não pudesse fazer. A gerente de restaurante saiu do metrô em Times Square e lembrou de outra canção:






Time is on my side”






Se perguntou: “Is it?” Teve a sensação de que o tempo nunca está do lado de ninguém. Procurou inspiração nas luzes, mas achou confuso e caótico. Subiu as escadas do centro da cidade mais famosa do mundo e encarou Times Square:






“I am here! Inspire me now!”






A ex-figurinista falou com o grande out-door da Target como um mestre. Que tipo de inspiração pode vir da propaganda da Target? Ela recorreu a MTV, talvez um pouco de música...ups... Sorry, a MTV não toca mais música, agora só são Reality Shows. E agora? Chevrolet? Coca Cola? McDonalds? Nikon? Ou deveria ela buscar inspiração no telão da Nasdaq. Avistou uma propaganda de um espetáculo da Broadway, agora sim:






“West Side Story: Inspire me!”






De repente as saias das atrizes na foto começaram a rodar e o balé de West side story tomaram vida. A filha da arquiteta se viu só em Times square, sozinha sobre a escadaria luminosa vermelha. Além dela, as bailarinas de West Side Story cantando:






Automobile in America,
Chromium steel in America,
Wire-spoke wheel in America,
Very big deal in America!






Ela achou que estava sonhando, quando as moças simplesmente voltaram para o out-door. Ela ensaiou descer da escadaria, mas antes do pezinho tocar o degrau de baixo, um monstro gigantesco apareceu caminhando em meio a praça. Um M&M gigante!!! Ela quis ter medo pelo tamanho da criatura, mas não conseguiu, em vez disso pensou em dar-lhe uma mordida. O M&M gitantescamente amarelo perguntou:



“Pois não?”






Muito assustada a moça não conseguiu responder.






“Eu sou o oráculo de Times Square, você veio aqui em busca de respostas, pois quais são as perguntas?”






“Senhor... Oráculo...”






“Você pode me chamar de M&M.”






“Tá bom... Seu M&M, eu vim aqui em busca de inspiração!”






“Pois você esta no lugar perfeito.”






O magnânimo oráculo pegou a moça pela mão e disse:






“Vocês podem sair, ela veio em busca de inspiração!”






Todos os out-doors e propagandas tomaram vida. Personagens de seriados de TV, modelos de produtos de beleza, lutadores de vale tudo suados, e até as princesas da Disney rodearam a neta de fazendeiros. Todos se acotovelavam, tentando chegar mais perto dela. Uns por cima do outros, eles diziam:



“Eu posso inspirar você!”






“Mas eu posso inspirar ela para coisas maiores.”






“Eu, posso inspirar ela para coisas mais bonitas”






O magnânimo amarelão pôs ordem na baderna dizendo que cada um teria sua vez. Primeiro um lutador de boxe mexicano, por que ninguém com juízo perfeito discutiria com ele.






“Eu sou a inspiração perfeita para você! Represento a superação física, a disciplina e a perseverança. Sou de uma família muito pobre do México, tive uma infância miserável, cruzei o deserto para chegar aqui, mas hoje, minha mãe mora numa mansão no México e meus sobrinhos todos tem um Playstation.”






Ela ficou impressionada, mas não conseguiu deixar de perceber uma cicatriz no rosto do rapaz:






“ Você tem medo?”






“Medo? Eu? Não tenho medo de ninguém!!”






“Você tem medo de se machucar? De não ter condições de cuidar da sua família?”






“Se você parar para pensar, o medo é que faz você desviar de cada golpe... sendo assim... tenho tenho medo sim, ele é que me faz sobreviver no ringue. E a minha família... bem a carreira de um lutador é curta... tenho que aproveitar ao máximo meu tempo...”






“Você é muito corajoso, muito determinado, mas viver sempre com medo deve ser muito angustiante.”






Um casal se aproximou afastando o boxeador mexicano que saiu um pouco cabisbaixo. A garota reparou que o casal era em preto e branco. Eles tinha saído do anuncio da Calvin Klein, e estavam usando apenas calças jeans.






“Nossa senhora... o que vocês estão fazendo descalço, sem blusa, todos lambuzados de óleo nesse frio? Deve estar fazendo uns 2 graus!!!”






“O Frio é um preço muito pequeno a se pagar pelo estilo.”






Disse a modelo magérrima trazendo seu descamisado parceiro de abdomem definido.






“Eu posso inspirar você!”






“Como?”






“Eu sou tudo que você quer ser!”






“Sempre achei que se fosse escolher um super poder, seria voar, mas agora vendo você... não sentir frio é um super-poder mais útil pra quem mora em Nova Iorque.”






“Que super-poder garota! Eu estou morrendo de frio! A questão não é essa! Sou o que você quer ser: alta, loira, magra, bonita, sexy... o tipo de mulher que tem o mundo ao seus pés.”






“O como é que isso vai ser inspirador para mim? Eu tenho 1,65m de altura peso 60 kg e tenho cabelo preto. Eu nunca vou ser como você, por mais que tente.”






“Ninguém disse que seria fácil, mas a recompensa no final...”- ela posa com o seu homem descamisado.






“Isso tudo parece muito bonito e tentado, mas nunca vou parecer como você numa calça da Calvin Klein, na verdade a calça da Calvin Klein não entra na minha bunda.Não tenho mais 15 anos, meu corpo simplesmente não é o mesmo de antigamente.”






Uma voz emana por trás dos seres publicitários:



“Envelhecer não é mais um mal necessário.”






Todos abrem espaço e um linda mulher de aproximadamente uns 40 anos caminha em direção a desinspirada moça. Sua serenidade aliada a sua despretensiosa beleza natural eram intoxicantes.






“Eu posso inspirar você. Você não é nenhuma garotinha. Você é uma mulher madura, decidida, você quer ter orgulho de dizer a sua idade.”






“Na verdade eu não sei muito bem...”-tenta falar mas é interrompida.






“Agora, você pode ter orgulho da sua experiência de vida, você sabe porque?”






“Por que...?”






“Por que com o novo creme Pro-retinol da Loreal, você fica com a experiência, mas apaga até as rugas mais profundas. Com a Loreal você tem o melhor dos dois mundos porque você merece!”






“Ai meu deus... vou ali cortar os pulsos, volto já, coisa rápida!”






O oráculo percebeu que era hora de medidas extremas.






“Você não precisa de nada disso, você precisa se reconectar com a criança dentro de você.”






As princesas da Disney a cercaram cantando e dançando felizes rodeadas de passarinhos, veadinhos, coelhinhos e toda sorte de bichinhos bonitinos.






“Escapismo agora?”- a ex-garçonete perguntou irônica.






Branca de neve sussurra no seu ouvido:






“Você está ouvindo isso? O tic tac?”






“Tipo um relógio da vida?”






“Não tolinha, é seu relógio biológico! Chegou a sua hora, a hora de você se reconectar com a infância e com a natureza.”






“Mas como?”






“Um bebê, o seu legado para a próxima geração!”






Uma senhora velhinha se aproxima com uma criança nos braços e coloca nos braços de nossa heroína:






“Ela tem o seus olhos, como você vai chama-lá?”






“Cecília...”- ela respondeu sem tirar os olhos daquela criatura adorável.






Levantou os olhos viu onde estava e reconheceu a velhinha:






“Peraí! Eu conheço você... você é a bruxa da maçã envenenada!!!!”






“Você só está nervosa; é normal, seu primeiro filho...”






“Depressão pós-parto atinge 30% das mães de primeira viajem, você não está só. E agora Promifamol pode ajudar. Promifamol é o único remédio testado contra depressão pós-parto que...”- a médica de sorriso muito branco é interrompida por um homem muito charmoso.






“Agora nós sabemos que a profissão mãe é a mais recompensadora, mas muito dura! Chevrolet fez um carro pensando em você...”- ele tenta explicar, mas um senhor grisalho com um rosto muito confiável aparece...






“Você e sua família estão em boas mãos?”






“Família...?”






“State Farm não assegura apenas o seu carro. Nós temos seguro de vida, de casa e até de barco...”






“Barco? Eu não tenho nem casa, vou ter um barco?”






Um veleiro imenso aparece arrebentando o chão de asfalto com um belíssimo homem. Ele salta do barco, abraça a garota que ainda segura o bebê.






“ O que você realmente quer é ser transportada para uma ilha paradisíaca com águas azuis!”






“Pra falar a verdade, considerando tudo isso aqui, uma ilha parece perfeito.”






“A nova fragrância Ralf Laurence te transporta para um paraíso de águ...”






“Para tudo!!!!!!!!!Seu M&M sem querer parecer mal educada, nada disso me inspira!”






Todos se espantaram, um reboliço entre os personagens publicitários se instalou e no meio dessa confusão ela aproveitou para devolver o bebê para a bruxa da maçã.








“Não, nada disso me inspira.”






“As vezes você está doente, posso chamar mais gente do departamento farmacêutico, nós temos remédio para tudo nesse país!”






“Eu não preciso de remédio seu M&M, preciso descobrir o que falta para mim.”






“Mas aqui nós temos tudo que você possa imaginar!”






“Todo que você me mostrou é muito bonito, prático, confortável e tentador, mas...”






“Mas...?”






“Tudo isso parece mais distração.”






“Distração?”






“Do que realmente importa.”






“Oh não! Perdemos mais um...” - desabafou Cinderela.






“Cale-se” - esbravejou o gigante adocicado-“Tenho certeza que se continuarmos tentando, vamos encontrar algo que inspire você. As vezes você é uma pessoa que gosta de chocolate meio amargo, posso chamar minha prima Godiva pra ajudar!”






“Não, agora as coisas estão claras! Vocês não tem o que é preciso para me inspirar. Agora é hora de ir embora.”






“Mas para onde você vai, depois de tanto tempo aqui... não vai se acostumar com a vida sem esse tipo de conforto. O ser humano só dá valor as coisas depois que perde, cuidado para não se arrepender! E além disso, você vai para onde?”






“Passárgada, lá eu sou amiga do Rei!”








Ela saiu confiante de ter feito a escolha certa! Sabia que ainda teria que esperar um pouco até poder rever o seu amigo Rei, mas agora tudo estava claro. Já sabia que aquele seria seu último inverno, e o último não parecia assim tão tenebroso.







segunda-feira, outubro 18, 2010

Por uma vida menos ordinária.















Desde o princípio dos tempos, a humanidade tem dificuldade em aceitar o caráter efêmero da nossa própria existência. A fragilidade da vida humana é extremamente paradoxal comparada à extrema quantidade de energia que empenhamos com a mesma. Procuramos razões mais elevadas, outras vidas, significados ocultos, deuses...tentamos nos comunicar com o sobrenatural por ritos desde o surgimento da humanidade. Eu mesma nunca entendi para que diabos procurar motivo para a existência. Para mim, a vida por si só se justifica. Chamem de milagre se quiserem, mas esse mundo que me rodeia e que muitas pessoas não acham suficiente, para mim é motivo de sobra para eu estar aqui!



Alguns meses atrás fiquei viciada em um programa de TV do Science Channel chamado “Through the wormhole.” O programa produzido por Morgan Freeman aborda temas como A origem da vida, Os buracos negros, Viajem no tempo, A anti-matéria entre outros; tudo isso usando um formato que torna mais acessíveis para não cientistas assuntos como o da teoria da relatividade. Depois de assistir a toda a temporada é impossível olhar a vida e tudo em nossa volta da mesma maneira. Tempo, espaço, a misteriosa energia que mantém as menores unidades da matéria unidas... parece clichê, mas a vida e o mundo ao nosso redor é absolutamente fascinante.




Agora se tudo ao nosso redor é assim tão fascinante, por que nós sempre sentimos a necessidade de nos distanciarmos da realidade. Tenho um sonho recorrente, de tempos em tempos ele se repete em diferente lugares, com pessoas diversas, mas a situação é a mesma: Levo um tiro no lugar de outra pessoa, espero horas por assistência médica, que nunca chega, finalmente, já inconsciente, começo a flutuar no ar e uma luz maravilhosamente brilhante irradia do meu corpo, quase como uma das imagens que a gente ver decorando as paredes das igrejas católicas. Tenho o mesmo sonho desde adolescente, por isso já tive muito tempo na minha vida para pensar no significado dessa imagem. A conclusão é simples: o desejo por uma vida menos ordinária.



Todos nós adoramos pensar que no fundo, no fundo, nós temos algum tipo de super-poder, ou uma habilidade especial que está escondida para um dia ser revelada diante de extrema adversidade. Esse desejo é o responsável pela criação de infinitos personagens fantásticos. Entre criaturas sobrenaturais, super-heróis e mutantes, sonhamos acordados com as possibilidades de vida proporcionadas por super-poderes. Quem nunca ouviu essa pergunta? “Qual tipo de de super-poder você escolheria?”



Já ouviu falar que em terra de cego, quem tem olho é rei? Pois é! Não importa qual super-poder você escolheria, o que importa é que você seja capaz de fazer algo que ninguém mais é capaz de fazer. Se todo mundo voasse, voar não seria interessante. Se todo mundo fosse super-forte, nós não passaríamos de formigas, que carregam várias vezes o peso do seu próprio corpo. A vantagem é ser diferente!



O ser humano, como um ser social, geralmente tem necessidade de ser aceito em uma comunidade. Nós vestimos as mesma roupas, ouvimos as mesmas músicas, falamos a mesma língua e assim, formamos tribos, vilas, cidades, estados, países... Aqui é onde a natureza do desejo humano se confunde, na necessidade de ser aceito em comunidade, paradoxalmente alinhado ao sonho de se destacar.



Agora, ser diferente tem seus dois lados. A diferença, às vezes, pode ser o motivo de estranheza, por isso, esse tipo de coisa funciona mesmo é na ficção. No cinema ou na literatura, isolamento social é romântico, na vida real, brutal. Quando era adolescente uma onda de vampiros se alastrou pelo mundo. Duas produções do cinema internacional foram responsáveis por isso: Drácula (1992) e Entrevista com Vampiro(1994). Os dois filmes exploraram a sedução da imortalidade, a fragilidade do isolamento social contando com elaborada direção de arte, sendo os dois filmes de época.



Pouco tempo depois, tudo que tivesse relação com vampiros, virou bobagem. Literatura, filmes, tv, se alguém mostrasse as presas, virava chacota. Em 2008, uma nova geração de adolescentes se apaixonou por vampiros novamente com o lançamento de Twilight. Eu, entre várias pessoas, me recusei a assistir os filmes, até o dia em que a curiosidade bateu mais forte. Durante 2 anos ouvi pessoas me dizendo que eu parecia demais com a garota de Twilight; alguns amigos tiravam onda e me chamavam de Bela, nome da personagem de Kristen Stwart. Foi o jeito assistir o filme. Twilight nem de longe se compara aos clássicos vampirescos dos anos noventa, mas quem pode discutir com o fenômeno que literalmente tomou conta do mundo inteiro.



Seguindo o sucesso de Twilight, e a repentina simpatia pelas criaturas das trevas, a HBO aproveitou para adaptar uma série chamada Sokie Stackhouse. O programa, chamado True Blood, tem como tema central os vampiros, mas não se restringe a eles. Lobsomens, metaformos, fadas e até deuses de culturas antigas se misturam no viciante programa de TV que, nos primeiros epsódios, parece não passar de filme pornô com vampiros.



Na época da invasão sobrenatural, de repente entrei na moda. Minha branqueleza, minhas olheiras fundas, meu cabelo preto... estou na moda! As brincadeiras não param por aí. Eu tenho pressão bem baixinha! Os médicos adoram, acham super-saudável e normal para mulheres na minha idade, indício de poucas chances para doenças cardiovasculares! Acontece que além de tontura, a pressão baixa faz com que esteja sempre gelada. Lembro de brincar falando para o meu namorado de adolescência que eu era uma animal pecilotermo, não um homeotermo, por ter sempre mãos e pés frios. Se já não bastasse ser pálida, gelada, ter olheira e cabelo escuro, todas as vezes que alguém tira uma foto de um grupo grande de pessoas, sou a única que sai de olho vermelho: SEMPRE! Ah não vamos esquecer do que a exposição mínima ao sol é capaz de fazer comigo!



Então pronto, meus amigos concluíram que não há outra explicação: tenho que ser vampira! Nunca desmenti ninguém, as vezes me sinto realmente um bicho estranho, mas dos anos noventa para cá, me tornei um bicho estranho bem mais sociável. A última vez que sonhei que levitava inconsciente depois de atingida por uma bala, acordei rindo pensando numa imagem de nossa senhora, misturada com a de um vampiro.



Por mais que me divirta com minhas semelhanças com os sombrios vampiros, sempre achei que se tivesse que escolher um super-poder, ou uma habilidade extraordinária, nada teria haver com a imortalidade das criaturas das trevas, ou a super-força dos heróis de quadrinho. Gostaria de ter o poder de ver o mundo de outra forma, ampliada, dissecada. De sentir o mundo de forma intensificada. De ser capaz não apenas de sentir o vento soprando em meus cabelos, mas de enxergar o ar, entender o conceito de espaço relativo visualmente, transitar entre diferentes dimensões, visualizar o som se propagando em ondas pelo ar. Queria poder ver a multiplicação de microorganismos, acelerar e desacelerar o tempo para melhor entender o mundo. Acho que esse seria o melhor dos super-poderes: a extraordinária habilidade de perceber as nuances em tudo que está sempre a nossa volta. Por que a vida em si é espetacular, ordinários somos nós, que nos distanciamos cada vez mais dela!

segunda-feira, outubro 11, 2010

Próximo texto:
Por uma vida menos ordinária!

Ter saudade é melhor que caminhar vazio...





Estranho como histórias antigas emergem quando nós menos esperamos. Hoje, no meu dia de folga, depois de horas limpando minha casa, parei para assistir um pouco de TV. Um programa bem bobo da MTV chamado Seven estava passando. Ia mudar de canal quando vi que eles iam mostrar uma matéria filmada na Comic Con, a maior feira de quadrinhos dos Estados Unidos.


Para quem não sabe, eu adoro quadrinhos. Na faculdade, produzi um evento de quadrinhos com um amigo. Foi assim que conheci Willian. Meu amigo Amauri e eu éramos bolsistas da CNPQ e estávamos, na época, estudando adaptação da linguagem da arte seqüencial (Quadrinhos) para linguagem teatral. Depois de tanto estudar o assunto, acabei me envolvendo na organização de um evento de quadrinhos. Willian era um garoto que, segundo meu amigo Amauri, agregaria conhecimentos em uma área que para nós era um mistério: Mangá e Animes, pois era organizador de um “clube” dedicado ao assunto. Conheci o rapaz que, extremamente magro e tímido, em poucas horas me fez dar gargalhas quase sem querer. Era como se tudo que saísse dos seus lábios fosse engraçado e genial, mas sempre mantendo uma despretensão apaixonante.

Nessa época, eu tinha namorado, provavelmente o cara mais bacana que já namorei na vida, mas como meus amigos próximos estão cansados de saber, eu sou um monstro que é capaz de se apaixonar por duas pessoas ao mesmo tempo. Para piorar a minha situação, meu namorado foi anexado ao time de organização do evento pelo meu amigo Amauri, desconhecedor da minha paixonite por Willian! Nunca vou esquecer o dia em que os dois se conheceram: Willian e meu namorado. Da mesma forma que me apaixonei quase que instantaneamente por Willian, ele e meu namorado virarão melhores amigos. Bastou um dia, nós três em um projeto de construção de displays para a exposição que seria apresentada no evento, para que três coisas se tornassem óbvias: eu estava encantada por Willian, ele e meu namorado seriam melhores amigos e meu sentimento morreria comigo, por que mesmo que eu viesse a terminar o meu namoro, nunca ousaria colocar em risco a amizade dos dois.

Assim, resignada e certa de que esse amor estava fadado a ser platônico pelo resto da eternidade, segui a vida ao lado do meu namorado, de quem não tinha motivos para reclamar. Os anos passaram, mas a sensação nunca mudou. Sempre que nos encontrávamos, a visão de Willian me fazia feliz, o seu sorriso espremido, que ele parecia tentar suprimir, era embriagador. A amizade dos dois continuou a crescer só para comprovar que estava certa, e que aquilo teria que ser uma coisa platônica. Os dois começaram a trabalhar juntos e logo a amizade virou parceria.

O estranho era que eu era feliz assim, vendo os dois trabalhar, só saber que ele estava bem era suficiente para mim. A crescente amizade com meu namorado não era o único motivo para a platonicidade do meu sentimento, tinha uma estranha sensação de que se algum dia o mundo virasse de pernas para o ar e finalmente pudesse ficar com ele, faria algo estúpido e o magoaria, como fiz com vários ex-namorados. Só a possibilidade de magoar Wiliam era insuportável. Lembro de conversar com duas amigas da faculdade sobre ele. Elas morriam de rir, não sabiam como eu podia estar apaixonada por um rapazola que pesasse menos que eu e andasse sempre arrastando suas havaianas como se ainda não tivesse realmente acordado, mas para mim, tudo nele era iluminado. Para mim ele era tão especial, que foi o único homem que coloquei num pedestal, especial demais para ser desperdiçado com mundanas desventuras amorosas.

Trabalhamos juntos várias vezes, até quando me mudei para o Rio, quando ele estava trabalhando no seu projeto final de formatura na escola de Belas Artes. Um filme usando a técnica de stop motion. Me mostrou os bonecos, o cenário... sempre modesto e reclamando da sua incapacidade de produzir material na velocidade que lhe era cobrado.

Quando me mudei para NYC, Willian ainda não tinha e-mail ou telefone celular. Parte de uma família muito simples, esses foram luxos introduzidos a ele mais tarde. Para a minha sorte, um dia , conversando via Skype com meu amigo Amauri, ele me contou a novidade: “Willian agora tem um celular.”

Liguei imediatamente, conversamos e perguntei como andava a vida. Em anos de amizade, nunca vi William com uma namorada ( graças a deus, não sei se suportaria), mas vi várias de suas colegas de classe se apaixonarem por ele sem que percebesse. Nesse dia, no telefone, ele me contou como tinha perdido uma garota por causa disso. Ela gostava dele, ele gostava dela, mas quando ele descobriu a mutualidade, já era tarde, a garota estava namorando outro. Ele falava disso com tristeza, como se tivesse perdido a única garota que já tivesse se interessado por ele na vida. De NYC, nessa época casada com o ex-namorido, não agüentei e confessei. Disse para ele que muitas pessoas já tinham gostado dele, mas que ele não acreditava em si mesmo o suficiente para perceber. Expliquei que tinha sido apaixonada por ele, mas que sabia da inconveniência do meu sentimento, devido nossa situação, e que só estava revelando aquilo para que ele entendesse que era um homem digno de admiração. Cinco segundos de silêncios foram suficiente para me derreterem de arrependimento por ter aberto a boca. Quando ele voltou a falar, supliquei que aquilo não mudasse nada entre nós, enfim, nessa época, eu já estava casada e vivendo em outro país.

Nunca mais tocamos no assunto. Mil coisas aconteceram... meu ex-namorado, seu amigo, casou com uma garota que até onde eu sei é bem legal. Meu casamento não deu certo. Willian finalmente conseguiu terminar seu filme e ganhou o prêmio de melhor curta no festival de cinema de animação de Gramado. Quando voltei a Belo Horizonte, separada do Namorido, nos encontramos para um café. Minha frustração com o casamento despedaçado e a notícia da felicidade do meu ex- namorado, ainda muito amigo de Willian, me segaram e me encheram de esperanças. Na noite anterior ao nosso encontro no Café do Palácio das Artes, sonhei que era muito rica e bem sucedida, que me encontrara com ele e lhe propusera que se mudasse para os Estados Unidos comigo para trabalhar num prestigiado estúdio de animação.

Acho que tomei uns 3 expressos. Logo meus sonhos de realização desse antigo amor foram dizimados pela notícia de que Willian finalmente estava namorando. Esbocei uma melancolia, mas ela se dissipou assim que percebi que estava bem com a garota. Surpreendentemente, fiquei feliz por eles, genuinamente feliz, e na verdade aliviada de não ter tido a oportunidade de estragar minha amizade, no meio do turbilhão de emoções que foi minha separação.

Esse não foi o único reencontro do dia, logo após o café do Palácio das Artes, fui encontrar meu amigo Amauri, que não via há alguns anos. No meio da conversa num bar, olhei para a TV. Eles estavam mostrando o Brasil Day em NYC. Achei estranho estar em Belo Horizonte, vendo NYC pela televisão, me senti pelo avesso. Lulu Santos estava fazendo o show. Sorri e me lembrei da canção que me fazia lembrar Willian:

“Eu gosto tanto de você que até prefiro esconder. Deixo assim ficar subentendido. Como uma idéia que existe na cabeça e não tem a menor pretensão de acontecer.”

Revelei a Amauri a verdade sobre meus sentimento por Willian que até então ele desconhecia. Ele achou a vida muito intrigante: “ e se eu nunca tivesse convidado seu namorado para a organização do evento de quadrinhos...”- cogitou ele. Nós rimos nostálgicos e relembramos os velhos tempos como senhores de avançada idade.

Essa foi a última vez que vi Willian. Ano passado recebi o e-mail de Amauri trazendo a notícia de que um acidente de bicicleta levara Wiliam ao hospital com pouquíssimas possibilidades de recuperação. Dias de angústia, e a inevitável notícia do seu falecimento chegou. Milhões de sentimentos se misturaram em um azedo no meu estômago. A lembrança do terrível acidente de bicicleta que anos antes quase tirara a vida de meu pai. A recordação de um acidente de moto que presenciei quando criança. A vontade de ter passado mais tempo com ele. A recordação do sentimento de felicidade que sentia ao ver seu sorriso tímido, e a dura realidade de saber que nunca mais sentiria aquilo de novo... A dificuldade de aceitar que ele não voltaria. Pensei na dor da família de Willian, e também de sua namorada. Se eu, que tão pouco tive dele, sentia como se alguém tivesse me arrancado um pedaço do peito, imaginava a dor de alguém que convivia com ele todos os dias.

Nessa época, minha amiga aqui de NYC, Patrícia tinha comprado uma bicicleta. Tive uma ansiedade horrível. Meu pai quase morreu anos antes por que estava sem capacete, agora um acidente de bicicleta me levava Willian. Liguei para Patrícia para pedir que comprasse um capacete. O telefone foi para a caixa postal, mas 5 minutos depois, ela me retornou a ligação. Não pude esperar que dissesse nada. Fui logo pedindo que pelo amor de Deus, comprasse um capacete e cuspindo a história dos dois trágicos acidentes. Quando finalmente terminei, ela muito nervosa me disse que estava me ligando por que tinha acabado de cair da sua bicicleta e que quase tinha sido atropelada por isso. Um frio gelado me subiu a espinha, e nós duas engasgamos. Perguntei se precisava de ajuda, mas ela disse que estava bem e que iria direto para casa. Quando cheguei no trabalho, vi Patrícia com os cotovelos e joelhos completamente esfolados. Tive vontade de chorar, mas em vez disso, só pedi que me prometesse comprar um capacete. No dia seguinte, Patrícia resolveu se desfazer da bicicleta, pois estava aterrorizada com o acidente. Minha saúde mental agradeceu.

Na última visita que fui ao Brasil, não estive em Belo Horizonte, passei a maior parte do tempo em Teresina. Uma noite, na saída de uma festa, avistei um menino assombrosamente parecido com Willian. A semelhança era tanta, que achei que estava vendo coisas. Meus olhos se encheram de lágrimas e contemplei a idéia de ir conversar com ele, só para matar a saudades, mas achei que era maluquice. Quando cheguei em casa a ansiedade era tanta, o arrependimento de não ter chegado mais perto do garoto que tanto se assemelhava a Willian era tamanho, que não dormi a noite toda. Durante o resto da estadia no Piauí, procurei, sem sucesso, pelo rapaz nos bares da cidade. Talvez ele fosse realmente apenas uma visão.

segunda-feira, outubro 04, 2010

Heroínas

Sei que parece bobagem, mas eu realmente acredito que o desenho animado que você assiste quando criança influencia sua vida adulta! Na verdade, influencia uma geração! Por que estou escrevendo sobre isso? Ah... só por que eu andei assistindo uns desenhos da Disney.

Tenho uma memória meia boca, bem apagadinha da minha infância. Lembro de usar um vestido que minha mãe me deu da feira Hip de BH que era feito de retalhos (lembra dessa moda?). Quando não tinha ninguém em casa, pegava um balde, um escovão e saia limpando o quintal cantando a música da Cinderela (1950). Também aprendi com as fadas madrinhas da Bela Adormecida(1959) que costurar e cozinhar podem ser coisas mágicas. Branca De Neve (1937) me ensinou que só o beijo do verdadeiro amor pode reviver você.



Em 1989, Disney tomou consciência de que esfregar o chão, costurar e cozinhar, nem cantando muito, seria o sonho de uma garotinha nos anos 80. Foi quando o estúdio lançou A Pequena Sereia. Ariel, era uma princesa revoltada que desobedecia o pai e tinha idéias revolucionárias, além disso ela tinha sonho de conhecer outros lugares. Agora, ela perde completamente a noção e sai entregando a voz para uma bruxa por causa de um carinha que ela nem conhece.


Em 1991, A Bela e a Fera, veio mostrar que as meninas não precisam ser assim tão superficiais. Bela, a heroína da vez, adora ler, quer sair da sua cidadizinha e não dá a mínima para o gostosão da cidade. Além disso, é uma boa filha, e só se encrenca quando vai salvar o seu pai! Agora, isso sim é uma heroína! O único problema com ela é que a moça se apaixona por um cachorro gigante! Cada pessoa com suas fantasias, mas esse negócio de se meter como bicho não é a minha!


Depois disso, Pocahontas (1995)! Quem achou que aquilo era um filme para crianças? Me recuso a comentar Pocahontas!


Mulan (1998), é o filme da emancipação feminina para garotinha, mais gráfico do que queimar sutiãs! O problema é que não consigo lembrar de uma música do filme. A gente sabe que não adianta livrar a China dos Unos numa época onde as mulheres pobres sonhavam em virarem putas, (Ups... desculpem meu vocabulário, quis dizer Gueixa!). Você precisa fazer tudo isso cantando e dançando ou as garotinhas não vão querer ser como você!


A gente sabe que no fim dos anos noventa, fazer animação ficou mais rápido e mais fácil. O difícil era achar um filme que encantasse as garotinhas e não ofendesse as mães, que nessa época já estavam trabalhando em dois empregos, enquanto estudando para o mestrado! A solução veio em 2009: A Princesa e o sapo.


Em A Princesa e o Sapo, Tiana é uma garota pobre , mas com muito amor familiar, que não tem tempo para paixonites e outras bobagens! Além disso, depois de tantas princesas brancas, uma árabe, uma chinesa, uma índia, estava na hora de uma negra! Então, depois de morrer de trabalhar, Tiana , eventualmente, reavalia suas prioridades (coisas que geralmente a gente só viu até hoje em personagens masculinos) e abre espaço para o amor em sua vida!


Adivinha qual princesa era a minha? Claro que é a Ariel, sou de 1981. Eu e minhas amigas passamos a infância brincando de sereias, mas não é só por isso que que a Ariel é a minha princesa: Nasci em Teresina (de onde sempre soube que iria me mudar), vivi em várias cidades , mas acabei mudando para New York, um lugar onde sempre quis viver, por que me apaixonei por um estranho!


Claro que Ariel não foi a única heroína da minha infância! Tive outros heróis : She-Ra, Os Thundercats, Shakespeare, Bruce Lee...


Agora, enquanto a Disney se preocupa em ser politicamente correta e não – sexista, o que tenho medo é que a nova geração de garotinhas escolha Paris Hilton como heroína em vez da Cinderela. Prefiro mil vezes minha filha limpando o chão enquanto canta do que uploading um vídeo transando com o namorado na internet!

domingo, outubro 03, 2010

O caráter efêmero dos sonhos

Nossa... depois de longo e tenebroso “inverno” resolvi comprar um novo HD pro meu laptop que estava quebrado há meses.

Pensei muito no que seria o texto de re-estréia do blog, mas depois de muito pensar, me lembrei: Eu só escrevo besteira mesmo, por isso, que besteira vai ser escrita antes não importa!


O negócio é começar a escrever de novo por que depois desse tempo todo parada, demoro vinte minutos pra escrever uma frase!


Ando pesando em milhões de coisa ultimamente. Já faz um tempo que deixei de trabalhar de garçonete. Agora sou gerente do restaurante grego onde trabalho há quase 3 anos. A maioria das pessoas me dá parabéns. O que ninguém sabe é que quando você vira gerente o que acontece é o seguinte: você trabalha mais horas, tem mais responsabilidades e ganha bem menos! É isso mesmo, não escrevi errado, eu disse MENOS!!! A minha promoção foi trabalhar mais e ganhar menos. Então você pode se perguntar: Por que diabos ela aceitou a promoção? Bem, recusei 3 vezes, pedi demissão do meu trabalho, fui trabalhar em outro restaurante como garçonete, só pra descobrir, que não consigo mais trabalhar de garçonete. Toda vez que a a hora de ir para o restaurante ia chegando, meu estômago ia se revirando e o desespero ia me consumindo! Durante o trabalho, toda vez que alguém era rude comigo, pensava em vinganças malignas, como entornar um jarro de água gelada na cabeça do infeliz. Achei que era melhor mudar de trabalho antes que perdesse a compostura e me encrencasse.


Claro que trabalhar mais e ganhar menos não ia me manter calma por muito tempo, por isso depois de 8 meses trabalhando de gerente, pedi demissão. Ainda estou no restaurante, mas o plano maligno agora é achar um trabalho de bartender no sábado e domingo para poder voltar a trabalhar com figurino de segunda a sexta.


O meu plano continua sendo adiado. Primeiro, uma viagem a Grécia (é verdade, fui a Grécia, prometo que escrevo sobre isso para vocês outra hora), depois visita de uma amiga de infância e agora, uma infecção respiratória (isso não quero nem comentar). Quando as coisas se arrastam por aqui, é difícil não pensar em voltar para o Brasil, e quando o meu aniversário de trinta anos se aproxima, é difícil de não pensar no que chamo de trindade da vida: amor, trabalho e localidade. Nunca consigo juntar as 3 coisas: uma cidade onde eu goste de morar, onde possa trabalhar na minha área e onde o consorte viva! Quando penso em sair de New York, é impossível não pensar nas possibilidades.


Sobre a cidade:


Eu já vivi em Teresina, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo (por muito pouco tempo) e New York.


Em Teresina eu tinha família, amigos, tive um amor fulminante mas nunca me senti em casa na cidade além de não ter a menor condição de trabalhar com figurino.


Eu amo Belo Horizonte: a cidade, as pessoas... além disso tenho minha família. BH foi o lugar onde mais trabalhei com figurino, onde me apaixonei por figurino, mas onde menos ganhei dinheiro.


Rio de Janeiro foi o lugar mais bonito onde morei e mais solitário. Os cariocas são tão diferentes de mim, que todas as vezes que tentava conversar com alguém me sentia um ET. Trabalhar no Rio também não foi fácil. Conheci maldade fora da adolescência, mas tenho certeza que hoje em dia, com mais experiência e atitude novaiorquina, não sofreria tanto. Sempre que penso em mudar para o Rio o óbvio vem em pauta: Globo. Mais oportunidade de trabalho... além da Globo, o Rio de Janeiro guarda outro tesouro: o Primeiro. Se você não sabe quem é o Primeiro... bem essa é outra longa história!


São Paulo... fiquei nessa cidade pouquíssimo tempo, sempre que estive lá foi a trabalho (que surpresa!). Diferente do Rio de Janeiro, as pessoas em São Paulo fazem mais sentido para mim. Trabalhar em São Paulo não foi tão difícil como no Rio, mas também não foi tão fácil como trabalhar em Belo Horizonte... Agora, a maior cidade da América Latina trás outra qualidade que é difícil de não prestar atenção: é cheia de homens, não qualquer tipo de homens, principalmente o tipo que eu gosto.


Ah... New York... a relação de amor e ódio! O melhor e o pior da vida profissional, o melhor e o pior da minha vida amorosa, o melhor e o pior da natureza humana... depois de cinco anos de New York, a sensação é de que qualquer outro lugar vai ser completamente entediante!




Sobre o Trabalho:


Teatro


Ah, o teatro! A vontade de matar os diretores porra loucas, de mandar os atores que vem com exigências de última hora para o quinto dos infernos. Eu amo figurino de teatro. Talvez seja simplesmente por que é de figurino que eu mais entendo e domino, talvez por que eu possa viajar na maionese e realmente pesquisar milhões de coisas legais antes de criar um figurino.


Cinema


Humm... é onde o dinheiro está, pelo menos aqui nos EUA. Com dinheiro vem institucionalização e organização... nunca achei que eu fosse dizer isso, mas eu adoro!


TV


Deus me ajude! Ainda não fiz TV, mas tenho certeza que isso vai estar num futuro próximo! Se eu resolver voltar para o Brasil então, inevitável! Até por que, no Brasil, é onde está o dinheiro!


Restaurante


Tenho uma coisa para dizer às pessoas que insistem em dizer que eu devo abrir meu restaurante: Você não tem a menor idéia do que é a vida dentro de um restaurante! Se eu algum dia disser que quero abrir meu próprio restaurante, por favor, me coloquem numa camisa de força, me tranquem num quarto escuro até que a vontade passe! Se alguém precisar de ajuda abrindo um restaurante no Brasil, eu posso ser sócia, ajudar a abrir, fazer cardápio, lista de cocktail, todas outras bobagens que eu aprendi por aqui em 5 anos... mas viver dentro de um restaurante... nem morta, santa!


L'amor...


Tem gente que é viciada em atenção. Há quem seja viciado em cigarros, coca-cola, outras cocas... eu, sou viciada em amor! O problema é que o amor no qual eu sou viciada é o tumultuoso, platônico e passageiro! Me chamem de superficial, mas eu sou paixonite-juckie! Já tive vários amigos me perguntando: “O que é que você quer em um homem?” Ora, mais que pergunta estúpida! Se eu soubesse responder essa pergunta, eu já tinha achado o homem ideal. Difícil não é achar o homem ideal, difícil é resolver o que é o homem perfeito e não mudar de idéia a cada seis meses!


Já cheguei a essa conclusão! Sou um animal cíclico! Se meu ex-namorado é um magrelo, metido a artista, com problemas existências, vou querer namorar um macho, dos bem grande, que vai me por no colo como se eu não pesasse nada! Agora, se o ex for um machão ignorante que só assiste filme que morre gente, o homem ideal tem que gostar de Jazz e museus. Aí você me pergunta: não dá pra achar um meio termo?! E eu respondo: Lá sou mulher de meio termo!!!! Quem é que quer um homem que é mais ou menos macho, que te carrega nos braços, mas que não aguenta fazer isso subindo as escadas, ou um cara que gosta de ler, mas só ler literatura norte americana!Eu sou exagerada como Cazuza!!! Vou morrer insatisfeita!


Juro por deus, a minha indecisão amorosa é tão grande que não consigo escolher nem qual é o ator com quem quero sonhar a noite! Acaba em insônia! Exemplo: esse semana comecei a assistir a nova temporada de Grey's Anatomy. Tem um ator feio muito macho, o personagem dele é um médico especialista em trauma que acabou de voltar do serviço militar. Acho ele uma delícia. Quando o episódio de Grey's Anatomy acabou, estava certa de que era aquilo o que precisava para ser feliz na vida: um macho ruivo, que é inteligente o suficiente para ser médico, mas macho o suficiente pra ir pra guerra! Dois dias depois, assisto o filme Young Victoria, baseada na história real da rainha Victoria e de príncipe Albert. Uma olhadinha no príncipe e o amor da minha vida muda de personalidade e forma. De repente eu quero um rapazinho tímido e magrelo que fica absolutamente nervoso perto de mim... aff!!!


A questão é que, difícil não é a vida em New York (ou em São Paulo), ou achar o príncipe encantado, nem mesmo o emprego ideal. Difícil é descobrir o que a gente realmente deseja! Por que? Por que quando nós sonhamos com a cidade, o trabalho ou o homem ideal, só nós concentramos no lado positivos das coisas, no momento em que os sonhos passam a categoria de realidade, eles se enchem de problemas e perdem o charme. Sonhos sem charme deixam de ser sonhos, viram realidade e são substituídos por novos desejos de felicidade! Simples assim! A felicidade é tão efêmera quanto a vida de um sonho realizado!





PS: Nossa! Eu estou bem enferrujada! Esse texto saiu bem amarradinho! Com o tempo melhora!